Observatório da nossa Polis à luz das memórias contínuas do pensamento filosófico português. Inspirado nos «Modernos Publicistas», segue o mesmo espírito crítico e de indignação:«De feito. Ardeu-me de todo o topete». Porque nunca calaremos no descampado onde reina a verdade que nos traz glória, repetiremos sempre a vontade de mestre Herculano: "é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las" ...!
segunda-feira, março 26, 2007
Sobre a memória colectiva, nestes pequenos dias de 'grandes portugueses'
domingo, março 18, 2007
Conhecendo bem o meu ex-colega Mestre Américo ...
E esperando que este meu modesto e humilde blogue tenha 'voz' para chegar, cada vez mais, perto da luz da verdade com que se deve contemplar a Justiça, aqui deixo uma simbólica mas expressiva marca de reconhecimento por um colega que, não sendo dos meus mais frequentes interlocutores enquanto trabalhávamos no mesmo estabelecimento - o Colégio Pina Manique, da Casa Pia de Lisboa -, sempre vi nele uma pessoa que transparecia integridade e coragem para, perante tamanhos descalabros sociais, ser um dos mais renhidos defensores da verdade: por isso, também aqui colocarei, em sua homenagem, um posta neste blogue, onde já se tem falado de outra Escola, onde tento trabalhar, embora o fenómeno das ... , também pseudo ..., aqui se faça ..., e por isso não posso ..., pelo menos enquanto não se dissiparem os tais pretensos ..., que são aqueles micro poderes subestatais ínsitos neste situacionismo de que muito fala o meu mui citado mestre de Ciência Política JAM ...!
Passo, por isso, na íntegra o post do Pedro Namora, merecedor de certo respeito ...!
SOLIDARIEDADE COM O MESTRE AMÉRICO
A tudo resistiu, fiel à sua condição de casapiano, menino pobre que conseguiu na instituição tornar-se um dos melhores relojoeiros do mundo. E responsável pela única escola de relojoaria existente em Portugal.
Pois agora está a ser perseguido no tribunal de Almada pelo ex-provedor da Casa Pia de Lisboa, Luís Rebelo de seu nome, o mesmo que Bagão Félix afastou quando foi descoberto o horror da violação de meninos pobres na Casa Pia de Lisboa.
O mestre Américo está a ser perseguido por ter dito uma verdade elementar: que grande parte da responsabilidade dos abusos sexuais é de quem dirigiu a Casa Pia ao longo de todos estes anos . E por ter, corajosamente, mencionado, entre outros, os nomes do ex-provedor Luís Rebelo e da antiga secretária de Estado Teresa Costa Macedo.
Tivesse o ex-provedor usado contra os pedófilos apenas um resquício do zelo persecutório e do ódio que agora nos dedica, e centenas de crianças teriam sido salvas da barbárie.
Estranhamente, a comunicação social omite o julgamento. É também um sinal dos tempos."
sábado, março 17, 2007
Sobre este medo que me invade ...
Senhores Professores, (des)animem – do envelhecido caldo de elite virá à tona a mais fina nata. Alva e cremosa. Adocicada pelo (des)mérito final, um tudo nada acre pelos pingos de limão de muitos anos de empenho enjeitado. Os melhores dos melhores. Todos juntos formando uma espécie de senado. Quase trôpego, é certo. Turvo pelas mais que certas cataratas, frágil devido a bafos suspeitos no coração, de fala arranhada e ouvido minguado. Mãos e braços limitados por epicondilites no ombro, no cotovelo, no pulso, em tudo o que deveria ser articulado. Por via de anos de apagador e giz em riste, há atrito dorido entre os ossos, outrora biologicamente oleados. Senado de senex, velho, idoso. Assembleia de notáveis. Aos futuros senadores escolares chamam-lhe Professores Titulares. Dos professores, a suposta nata. Julgá-la obtida a partir da massa espessa que sobrenada no leite fresco, é engano. Cruel. Mas engano.
Os doutos Titulares são o último patamar da carreira docente. Dificilmente lá chega a plebe que se esmifra a encasquetar conceitos em mentes transbordantes de playstation, exigências, internet, sms, abandono e toques polifónicos. Uns desgraçados entupidos de todo. Mais desgraçado só o canalizador/professor que é suposto abrir brechas por onde circulem ideias correntes e se arrisca a levar como extra ao pré uns tabefes. Uns e outros dispostos a mandarem-se mutuamente a sítios pouco recomendáveis. De vez em quando, a paixão acontece - são os «cromos» se alunos, os «tansos» se professores. Os primeiros gozados à fartazana pela malandragem encartada, os segundos engolindo o amor mal saídos da aula, não vá alguém apelidá-los de carreiristas safardanas.
Para chegar a Professor Titular somente interessa o feito e os cargos ocupados desde 1999. Pode, até aí, ter sido o maioral dos baldas, ter aniquilado vocações aos milhares, ser dos incompetentes o rei. Tudo o tempo levou se da referida data para cá somar os pontos estipulados. Do mesmo modo, o esmero e amor pela profissão e pelos alunos, assiduidade sem mácula, desempenho dos mais altos cargos docentes são inúteis se após o final do século sobreveio o cansaço pelos serviços burocratas e/ou maleita física inesperada. Professor Titular. Entre pares: um sortudo!"
domingo, março 11, 2007
Hino às vontades dos tempos
Rui Machete
Têm-se tornado cada vez mais frequentes os alertas e os apelos para a necessidade de mudança e de mudança rápida em múltiplos sectores da vida portuguesa, se pretendermos não ficar para trás nesta concorrência cada vez maior que a economia e a sociedade globais nos impõem. A médio prazo, o que está em jogo é o bem-estar dos portugueses, mas, ainda mais importante, a sua autonomia cultural e política como povo com uma História longa e rica e uma identidade bem vincada.
Beijinhos à minha IRIS, neste 'seu' bonito Domingo de Março!
sábado, março 10, 2007
sexta-feira, março 09, 2007
Eternos ciclos, míticos retornos!
terça-feira, março 06, 2007
Em busca do equilíbrio perdido (!?)
Veja-se, a título de exemplo, hoje aqui com esta dos Moody Blues (Question Of Balance - 1970), como já se gritavam (a fazer ecos de inconformismo) os males 'de alma' (social?) que, hoje, parecem estar, simplesmemte ... na moda! Por outras palavras, parafraseando meu mui citado mestre JAM, a felicidade ainda não consta das Constituições? Porquê?quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Depois do Inconformismo
domingo, fevereiro 11, 2007
Razões que só o coração conhece!
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Quem com ferros mata ...
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Sinais do Tempo
Continuo a rever-me na constante e serena consolação de aprender, contemplando, naquele conhecer sem sabor, sem prefiguração, sem ante nem post, sem alto nem baixo, sem lado nem limite que o reduza a qualquer desejo que não seja o de beber a encarnação redundante, sem ânsia de ser o que sempre foi, o da plena liberdade que nos traz a serena consolação de aprender, contemplando!
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Somos apenas o que a vida depositou em nós
"«Conhecemos tão pouco da vida, do mecanismo complexo que deve ser este do mundo que, segundo me parece, o decidir-se não tem grande valor, senão no que respeita à estima que poderemos manter por nós próprios, à confiança que talvez seja absurda, mas que em todo caso nos permite viver. Creio que, sejam quais forem as circunstâncias, tanto faz decidir-se depois de ter pensado bem um ponto como decidir-se atirando a moeda ao ar... »
Agostinho da Silva, Sete Cartas a Um Jovem Filósofo"
Eu diria aqui, ainda, que cada um de nós é uma parte da vida que não se repete, nesta constante repetição que a vida é feita.
sábado, fevereiro 03, 2007
Eu diria "Negócios da China"!(?)
Desta vez, porém, acho que o Manuel A. Pina bateu forte, fortemente, como quem chama por nós, com o intuito de fazer chegar a cada um a opinião, certamente, de muitos quantos também se encontram com o coração, se não na boca, pelo menos nas mãos, ou para o amansar, tal deve ser o estado de encolerização, ou para que não definhe com o Estado a que as coisas estão a chegar!

Gente não é certamente, e a vida não bate assim:
Das duas uma: ou o Governo engana todos os dias os portugueses quando lhes diz que a situação económica e financeira melhora, a "crise" está a ser ultrapassada e os sacrifícios pedidos a todos excepto à Banca (diminuição de salários reais, despedimentos, trabalho precário, incumprimento das leis, miséria) acabarão em breve, ou então contou o conto do vigário aos chineses ao convidá-los a investir em Portugal porque os salários são baixos e a hipótese de virem a aumentar é menor do que nos novos países da UE. Porque, obviamente, os chineses não farão investimentos em Portugal para durarem apenas um ano. Se a comitiva de Sócrates garantiu aos chineses expectativas altas em relação aos salários baixos dos portugueses é porque, também obviamente, o Governo tenciona prosseguir a política de "os pobres que paguem a crise", pelo menos até os bolsos dos que se alimentam da crise estarem tão cheios que alguma coisa inevitavelmente acabará por cair deles. O que o Governo foi dizer aos chineses foi que, quanto a remuneração e protecção do trabalho, Portugal é uma espécie de China da Europa, pelo que se sentirão em casa. E alguma garantia disso os chineses hão- -de ter tido, pois, segundo os jornais, assinaram já acordos de centenas de milhões de euros."
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Mas que dias, estes 31's de Janeiro

terça-feira, janeiro 30, 2007
Que ninguém diga Sim, Não, nem muito menos Nim!
terça-feira, janeiro 23, 2007
Esperando, ... esperando vou escutando e aprendendo, ...
posted by JAM
Um homem e uma mulher fizeram amor. Um óvulo recebeu um espermatozóide entre milhões, apenas um. E pelo milagre da fecundação essas duas células transformam-se num ser humano. Porque no momento em que essas duas células (óvulo e espermatozóide), cada uma com 23 cromossomas, se unem e se transformam numa única célula de 46 cromossomas, existe já um ser humano. Com a sua estatura, a cor do seu cabelo e dos seus olhos. Mesmo que ainda se não veja. A sua vulnerabilidade a certas doenças. Mesmo que ainda as não tenha sofrido. O seu coeficiente intelectual. Mesmo que ainda não saiba uma só palavra. O seu metabolismo e a totalidade da sua bioquímica. Embora dependa ainda e completamente do metabolismo da sua mãe. Inclusive, uma percentagem significativa da sua personalidade está codificada nesses genes. Mesmo que não tenha dito sequer uma única palavra. Nesse livro por abrir do ADN reconhecem-se todos estes dados e instruções. E muitos milhões mais. Estão aí todas as características de um novo ser humano. Todas estão aí, mesmo que ainda não tenham sido "lidas".
Ao contrário do meu livro por abrir do qual existem algumas centenas ou milhares de cópias idênticas, esta nova pessoa (literalmente recém concebida) é única. Não há nem haverá outra como ela em toda a história da humanidade, por mais que esta se prolongue.
Se aceitamos que o meu livro por abrir é um livro, como é que alguns se negam a reconhecer que esse novo ser humano é um ser humano pelo simples facto de ainda não ter sido "lido", de não se ver, de não ter crescido, de não ter atingido todo o seu potencial - que já se encontra neste óvulo fecundado - acto, para empregar a terminologia aristotélica?
Será menos pessoa ou deixa mesmo de o ser por estar ainda fechada, apenas fechada no ventre de sua mãe? Mas o meu livro não deixa de ser um livro pelo facto de ainda estar fechado e colocado numa estante.
Esta pessoa é uma pessoa desde o exacto momento em que foi concebida. Nem um segundo antes nem um segundo depois.
E, graças ao que ficou dito, esta nova pessoa tem liberdade. Liberdade para escolher. Liberdade para optar pelo bem e pelo mal. Liberdade para fazer o bem ou para seguir outro caminho.
Ai Já me esquecia! Desde o instante da sua concepção essa pessoa tem uma Alma eterna. Mas essa já é uma outra história: a história de um livro aberto com as páginas em branco por escrever."
É frequente numa discussão acabar por esquecer-se o ponto de partida.Assim acontece notoriamente no caso do referendo que se anuncia, em que o debate geralmente se afasta do teor exacto da pergunta que é colocada à votação, e foge das consequências das respostas possíveis.
Normalmente discute-se o aborto, em abstracto, no registo "eu acho que", perdendo-se a noção de que o referendo incide sobre uma pergunta em concreto, da qual deverão em princípio decorrer consequências legislativas.
Imagine-se a resposta sim.
Os que prontamente declaram querer votar sim (isto é, que concordam com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado) admitem que a sua resposta signifique concordância com a penalização do acto quando praticado fora de estabelecimento de saúde legalmente autorizado? E são pela penalização do acto quando praticado após as primeiras dez semanas?A lei penal deve portanto manter a pena para a interrupção voluntária da gravidez que seja realizada após as primeiras dez semanas e/ou fora de estabelecimento de saúde legalmente autorizado?É o que resulta iniludivelmente da interpretação a contrario da pergunta em análise...
Pelo que lhes ouço, creio sinceramente que não é este o significado que dão ao sim os mais empenhados defensores dessa opção.
Porém, é essa a pergunta que é colocada a todos os votantes. E, tal como está, verificando qual o sentido mais comum que o mais comum dos falantes do português pode extrair da fórmula, não há dúvida que ao perguntar pela concordância para uma despenalização em certas condições dadas está a pressupor-se a estabilidade da penalização para os casos que se situem fora desse âmbito restrito.
Ora sendo assim é legítimo concluir que a pergunta referendada pode distorcer os resultados da votação, no sentido de facilitar a resposta sim.
Bastava que a pergunta apresentasse claramente o verso e o reverso para os resultados serem bem diferentes.
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, mantendo-se a penalização qundo não se verifiquem tais requisitos?"Nesta formulação o sim significava inequivocamente concordância com a punição da interrupção voluntária da gravidez realizada ou para além das dez primeiras semanas, ou fora de estabelecimento legalmente autorizado. Mas quantos dos entusiastas do sim continuariam a manter a sua resposta?
Se a minha observação está correcta, o resultado sim parece conduzir a um impasse político. Com efeito, a legislação ordinária que deverá conformar-se com o que resulta da pergunta aprovada não satisfará os mais ardentes partidários do “sim”. Só pode estar de acordo com a perspectiva dos que votarão “sim” convencidos de que estão a dizer “sim” apenas ao que está expresso, e que votariam “não” se lhes fosse posta a questão em termos de o seu “sim” implicar também concordância com o que ali não está.
Como é fácil de calcular, se vier a acontecer essa conformidade legislativa com o sim que é referendado (continuarão então a ser julgados e punidos todos os abortos clandestinos, que serão todos os praticados fora dos tais estabelecimentos autorizados e todos os efectuados para além das dez primeiras semanas) nada se modificará na actuação política dos actuais combatentes pelo sim.
Eles não aceitarão que "as mulheres sejam julgadas", que a "interrupção voluntária da gravidez" seja punível, seja o acto praticado onde for e seja qual for o tempo de gestação do feto.
O que vale por dizer que a luta vai continuar. Indefinidamente.
Teria sido bom que quem se pronunciou pela clareza e constitucionalidade da pergunta tivesse prevenido estes aspectos, que não me parecem dispiciendos.
Para não maçar, desisto de entrar pelas questões relacionadas com a protecção da vida imposta pelo art. 24º da CRP e o futuro estatuto jurídico do embrião. Na verdade, se não existir protecção penal para o embrião (até às dez semanas de vida estará inteiramente na disponibilidade da progenitora, que o poderá destruir por simples acto de vontade, independentemente de qualquer causa ou justificação), e não for estabelecida outra qualquer forma de tutela jurídica desses bens (presumo que bens jurídicos ainda serão), qual será então a sua natureza jurídica? Coisas? E se forem coisas, devem considerar-se in comercium ou extra comercium? Repare-se que esta distinção teórica de res extra comercium ou res in comercium se revestirá da maior relevância prática, já que como se sabe existem interesses económicos na utilização dos embriões.
E como se irá harmonizar a legislação acerca dos embriões produzidos laboratorialmente, segundo técnicas de reprodução artificial, v. g. fruto de fertilização in vitro ou clonagem, com a situação jurídica dos embriões gerados naturalmente? Acontecerá que uns gozarão de protecção jurídica e outros não?São muitas perplexidades para upoucas respostas.
Como procurei demonstrar, ao referendo anunciado suceder-se-á uma situação curiosa: caso vença o não começarão de imediato a desenvolver-se os esforços para que o sim prevaleça por qualquer outro modo, v. g. por via legislativa, ou se for preciso através de um outro referendo; e se o sim ganhar assistiremos aos mesmos esforços, agora para consagrar na lei ordinária soluções que sejam mais aceitáveis para os guerreiros do sim, porque a simples consagração legislativa do que consta da pergunta referendada não satisfaz de forma alguma os seus objectivos.
Não creio que tenha feito uma grande descoberta, e nem vejo que alguém, seja qual for a sua posição, vá contra este meu prognóstico.Estamos indubitavelmente perante uma guerra para continuar, e engana-se quem pensar o contrário.
Pense-se em que nenhuma das situações levadas a tribunal e que provocaram enormes campanhas dirigidas à opinião pública (Setúbal, Aveiro, Maia) teria destino diferente se estivesse em vigor o que a pergunta referendada sugere. Os casos referidos, que pela lei actual são crime, continuariam a sê-lo se estivesse consagrada a posição constante do referendo.
Não é conhecido nenhum exemplo que tenha sido submetido a julgamento (primeiras dez semanas???) e que fosse abrangido pela despenalização proposta na pergunta sujeita a referendo.O que mudaria então na atitude dos que se manifestaram na ocasião por todos os meios, desde as colunas de opinião às portas dos tribunais? Obviamente, nada.
Anoto ainda os equívocos, significativos, em que o debate continua a processar-se. Não me refiro já ao uso eufemístico da expressão "interrupção voluntária da gravidez" para fugir ao termo mais cru e verdadeiro, aborto. Estou a pensar por exemplo na insistência obsessiva em apresentar a norma penal como "perseguição às mulheres" (tem que se repetir com especial ênfase a palavra "mulheres"). A verdade é que a norma, como qualquer outra de estrutura semelhante, prevê um comportamento que define como crime e estabelece uma pena para o seu agente - abstraindo de quem possa ser esse agente. Pode ser mulher ou homem. Incorre no crime de aborto a mulher que de modo consciente e deliberado pratique aborto sem si própria, e incorre no mesmo crime o homem ou a mulher que o pratique em outrem. E recorde-se que pode ser punido como autor tanto o autor material (por exemplo o médico, o enfermeiro ou o prático que o faça) como o autor moral (aquele, por exemplo namorado, marido, amante, que determine outrem a realizá-lo). Penso que neste ponto me responderiam que sim senhor, assim é teoricamente mas na realidade só aparecem mulheres a responder por esse crime. Respondo que é verdadeira a observação, mas por um motivo completamente diferente do que estaria a pensar o meu imaginário interlocutor: a razão por que têm respondido nos tribunais portugueses por crime de aborto mais mulheres do que homens reside simplesmente no facto de entre nós quase não existirem enfermeiros-parteiros - só há enfermeiras-parteiras.
Abreviando, estou eu a querer dizer o seguinte: a previsão legal do crime de aborto serve para muito mais do que para perseguir mulheres grávidas. Serve essencialmente para perseguir por esta via quem faz negócio dessa prática. E que com a despenalização continuará no ramo, agora de porta aberta, ou passará a trabalhar nas clínicas espanholas. Fala-se só nas mulheres grávidas para esquecer o facto incómodo de os despenalizados serem fundamentalmente os outros (os que vivem disso, e os que levam a isso).
Queria deixar ainda uma nota quanto ao tremendismo das descrições do pretenso flagelo punitivo. Quem frequenta todos os dias tribunais sabe que é acontecimento raro um processo por crime de aborto. A esmagadora maioria dos advogados e dos magistrados portugueses nunca viu nenhum. Procure-se nas estatísticas e constate-se a insignificância. A despenalização vai resolver o quê, a não ser a impossibilidade legal de exploração comercial da actividade?Finalmente, uma observação que gostaria de poder desenvolver em futuro escrito. É sabido que a norma jurídica se caracteriza além do mais pela sua generalidade e abstracção. Tal implica que a construção normativa de um tipo criminal tem que ter como referência a conduta-regra a que se atribui desvalor jurídico, aquela que possa constituir o paradigma do que se pretende censurar penalmente, aquela a que se devem subsumir as concretas condutas humanas submetidas depois a apreciação e valoração. Não se pode edificar o direito penal tendo como referência circunstâncias excepcionais, desvios ao que é a conduta-padrão integrante do crime. A generalidade da norma é que terá que dar-lhe a flexibilidade necessária para dar resposta tanto ao que é a regra como aos seus desvios.
Todavia, na discussão sobre a incriminação do aborto, conduzida pelos defensores da despenalização e liberalização, o ponto de partida situa-se sempre em situações extremas. Apela-se ao dramalhão e à emoção fácil. Parte-se de perguntas que em geral contêm a própria resposta. "Então e se uma mulher se vir forçada a abortar por..." dá vontade de responder que se alguém foi forçado a algo então não pode haver crime porque não estamos perante uma acção voluntária. Em todo o caso, a técnica é sempre a mesma: atirar com situações que em rigor podem e devem ser tratadas a nível das causas de exclusão da culpa ou da ilicitude para atacar a própria norma incriminadora - que evidentemente não contende com os princípios gerais, ou as previsões específicas que existirem, respeitantes a exculpação ou legitimação.
A discussão está desse modo viciada logo nas premissas, e nada pode trazer de útil e esclarecedor.
Mas talvez a confusão seja mesmo intencional."
segunda-feira, janeiro 22, 2007
À espera do meu país
sábado, janeiro 20, 2007
Vous vous situez à gauche ...
Pour obtenir des explications sur ces résultats et sur les profils politiques de tous les partis :" (...)



