segunda-feira, março 26, 2007

Sobre a memória colectiva, nestes pequenos dias de 'grandes portugueses'

"Dos fracos não reza a história"!!!

Muito teria de recordar, a montante e a jusante da verdade histórica sobre tão ilustre personagem da nossa história colectiva, como é a do ex-Presidente do Conselho de Ministros António de Oliveira Salazar (também se pode ver o que hoje diz o meu mui citado mestre JAM): a montante, sobre as causas que permitiram que a exuberância do seu carisma se plasmasse na adesão massissa dos vários quadrantes sócio-ideológicos daqueles tempos de rescaldo da 1ª República (...); a jusante, sobre as consequências que, principalmente a partir do isolamento internacional do regime criado pelo Estado Novo, assim como dos desiquilíbrios internos advindos da obsolescência do respectivo sistema nacional, se fizeram sentir no oportunismo daqueles que o regime então evitava, que mais não são que os mesmos que, hoje, fazem com que, na consciência da maioria dos portugueses, se repita o que em 1926 era inevitável: a chegada de um qualquer 'dom sebastião', qual messias salvador para tamanha catástrofe nacional, que agora também se vive!
Creio-me insuspeito, para os que realmente me conhecem, sobre a minha opinião a respeito deste homem de Estado que foi Salazar. O mesmo já não direi de M. Caetano, se bem que não o contraponha, apenas distinga. Mas daí a Salazar ser o maior português de todos os tempos, ... ?! Não posso esquecer:
- o episódio de 1958 (ao colo de minha saudosa tia-avó Amélia, em Guimarães, tinha eu 4 anos, fugia o povo à frente das investidas a espada da cavalaria da GNR, procurando euforicamente uma porta onde se enfiar, tal o pânico criado na população que então se reuniria para o que deveria ter chegado a ser um comício a favor de Humberto Delgado ...);
- a disciplina antipedagógica que se vivia nas salas de aula, em estabelecimentos de ensino onde o separatismo do género humano criava um pseudo mito da castidade sexual;
- a polícia política que, por eu ter participado em "actividades estudantis subsbersivas para a ordem da Nação", me expulsou do Liceu e me proibiu de estudar em estabelecimentos públicos de ensino; etc.; etc..
Por isso direi, mais uma vez, que estes dias, tão estranhos que já não admira tamanha estranheza (pois a memória colectiva a que, forçosamente, nos fomos habituando, não se compadece com as fraquezas indiduais que o esquecimento constrói), estão nesse contraponto das pseudo-verdades que se querem sobrepôr ao espírito imanente, essa Vontade que está, congenitamente, na personalidade social dos povos.
E, neste contexto, faz-me o presente episódio evocar, também ao jeito historiográfico, a mensagem musicológica deste trecho dos Moody Blues:








MOODY BLUES lyrics

domingo, março 18, 2007

Conhecendo bem o meu ex-colega Mestre Américo ...

Solidarizo-me, inevitavelmente, nesta luta contra a tirania do espalhafato mediático das pretensas musas pseudo-democráticas, nesta democratura pederasta que nos invade, oprime e esvazia a capacidade de tolerância, sobretudo naqueles que ainda se dão ao indisopensável sacrifício de respeitar a diferença.

E esperando que este meu modesto e humilde blogue tenha 'voz' para chegar, cada vez mais, perto da luz da verdade com que se deve contemplar a Justiça, aqui deixo uma simbólica mas expressiva marca de reconhecimento por um colega que, não sendo dos meus mais frequentes interlocutores enquanto trabalhávamos no mesmo estabelecimento - o Colégio Pina Manique, da Casa Pia de Lisboa -, sempre vi nele uma pessoa que transparecia integridade e coragem para, perante tamanhos descalabros sociais, ser um dos mais renhidos defensores da verdade: por isso, também aqui colocarei, em sua homenagem, um posta neste blogue, onde já se tem falado de outra Escola, onde tento trabalhar, embora o fenómeno das ... , também pseudo ..., aqui se faça ..., e por isso não posso ..., pelo menos enquanto não se dissiparem os tais pretensos ..., que são aqueles micro poderes subestatais ínsitos neste situacionismo de que muito fala o meu mui citado mestre de Ciência Política JAM ...!

Passo, por isso, na íntegra o post do Pedro Namora, merecedor de certo respeito ...!




No tribunal de Almada, está a ser julgado o herói Américo Henriques. Eu relembro: durante décadas lutou, sozinho, para evitar que as crianças internadas na Casa Pia de Lisboa fossem abusadas sexualmente. Corajoso, enfrentou tudo e todos, sofreu perseguições diversas, incluindo a que lhe foi movida de forma particularmente cruel por Teresa Costa Macedo.
A tudo resistiu, fiel à sua condição de casapiano, menino pobre que conseguiu na instituição tornar-se um dos melhores relojoeiros do mundo. E responsável pela única escola de relojoaria existente em Portugal.
Pois agora está a ser perseguido no tribunal de Almada pelo ex-provedor da Casa Pia de Lisboa, Luís Rebelo de seu nome, o mesmo que Bagão Félix afastou quando foi descoberto o horror da violação de meninos pobres na Casa Pia de Lisboa.
O mestre Américo está a ser perseguido por ter dito uma verdade elementar: que grande parte da responsabilidade dos abusos sexuais é de quem dirigiu a Casa Pia ao longo de todos estes anos . E por ter, corajosamente, mencionado, entre outros, os nomes do ex-provedor Luís Rebelo e da antiga secretária de Estado Teresa Costa Macedo.
Tivesse o ex-provedor usado contra os pedófilos apenas um resquício do zelo persecutório e do ódio que agora nos dedica, e centenas de crianças teriam sido salvas da barbárie.
Estranhamente, a comunicação social omite o julgamento. É também um sinal dos tempos."

posted by Pedro Namora às 12:10

sábado, março 17, 2007

Sobre este medo que me invade ...

Olho lá para fora. Já não tão relevantemente para as notícias publicizadas, nem para as da netosfera. Apenas me provoca angústia a monstruosidade dos poderes com que me sinto administrado, nesta polis em que quero ser cidadão civilizado, mesmo com o meu capital de culpas obrigacionais, mais morais (penso que ainda tenho consciência disso) que legais. O que me provoca medo, daquele tipo terrificador! Não há pachorra!
É assim que, nesta semana em que lá tive, mais uma vez, de telefonar para a EDP para me anularem uma factura mal processada (estava a pagar, duplamente, sabe-se lá por quantos meses isso já vai, a Contribuição audio-visual ...!), entre a tal baixa médica e o meu compromisso para com alunos, sem ter tido, felizmente, de estar muito tempo em filas para a entrega das declarações do IRS, me vejo, cá dentro da minh' alma atormentada por esta melancolia das existenciais falsas liberdades, a braços com o neo-perfectorismo dos "professores titulares".
A este respeito, apesar de já ter lido algumas, nos jornais, nos portais da educação e, muito, neste ciberespaço que é a blogosesfera, não poderia deixar de me chamar a atenção o estilo provocador, mas realista, deste artigo de um Blogue que passo a recomendar aos mais liberdadeiros cibernautas: "Tati".
"PROFESSOR TITULAR

Senhores Professores, (des)animem – do envelhecido caldo de elite virá à tona a mais fina nata. Alva e cremosa. Adocicada pelo (des)mérito final, um tudo nada acre pelos pingos de limão de muitos anos de empenho enjeitado. Os melhores dos melhores. Todos juntos formando uma espécie de senado. Quase trôpego, é certo. Turvo pelas mais que certas cataratas, frágil devido a bafos suspeitos no coração, de fala arranhada e ouvido minguado. Mãos e braços limitados por epicondilites no ombro, no cotovelo, no pulso, em tudo o que deveria ser articulado. Por via de anos de apagador e giz em riste, há atrito dorido entre os ossos, outrora biologicamente oleados. Senado de senex, velho, idoso. Assembleia de notáveis. Aos futuros senadores escolares chamam-lhe Professores Titulares. Dos professores, a suposta nata. Julgá-la obtida a partir da massa espessa que sobrenada no leite fresco, é engano. Cruel. Mas engano.

Os doutos Titulares são o último patamar da carreira docente. Dificilmente lá chega a plebe que se esmifra a encasquetar conceitos em mentes transbordantes de playstation, exigências, internet, sms, abandono e toques polifónicos. Uns desgraçados entupidos de todo. Mais desgraçado só o canalizador/professor que é suposto abrir brechas por onde circulem ideias correntes e se arrisca a levar como extra ao pré uns tabefes. Uns e outros dispostos a mandarem-se mutuamente a sítios pouco recomendáveis. De vez em quando, a paixão acontece - são os «cromos» se alunos, os «tansos» se professores. Os primeiros gozados à fartazana pela malandragem encartada, os segundos engolindo o amor mal saídos da aula, não vá alguém apelidá-los de carreiristas safardanas.

Para chegar a Professor Titular somente interessa o feito e os cargos ocupados desde 1999. Pode, até aí, ter sido o maioral dos baldas, ter aniquilado vocações aos milhares, ser dos incompetentes o rei. Tudo o tempo levou se da referida data para cá somar os pontos estipulados. Do mesmo modo, o esmero e amor pela profissão e pelos alunos, assiduidade sem mácula, desempenho dos mais altos cargos docentes são inúteis se após o final do século sobreveio o cansaço pelos serviços burocratas e/ou maleita física inesperada. Professor Titular. Entre pares: um sortudo!"

domingo, março 11, 2007

Hino às vontades dos tempos

Deambulações de um português em Portugal

Vejo-me entorpecido neste deambular, de atestado médico na mão, entre serviços de saúde, processos disciplinares, a Escola onde exerço e o aconchego de minha casa, para descanso das maleitas que fazem felizes alguns do tal ditirambo ...! Mas como não caí em concreta paranóia, valha-me Deus e me livre de tal diabólica sina, vou trabalhando, mesmo nas condições presentes, nessa promessa de transmitir o resultado de alguns elementos de avaliação aos meus alunos , que são o grande móbil de tão vasto empreendimento, como é o caso desta ministerial missão que é EDUCAR!
E também me vejo nas palavras proferidas sobre estes Horizontes da Academia, e subscrevo, finalmente, o que diz este nosso ex-PM acerca da situação docente, neste sistema de micros anti-sistemas educacioneses:
"Há que continuar a avaliar escolas e professores

Rui Machete
Advogado

Têm-se tornado cada vez mais frequentes os alertas e os apelos para a necessidade de mudança e de mudança rápida em múltiplos sectores da vida portuguesa, se pretendermos não ficar para trás nesta concorrência cada vez maior que a economia e a sociedade globais nos impõem. A médio prazo, o que está em jogo é o bem-estar dos portugueses, mas, ainda mais importante, a sua autonomia cultural e política como povo com uma História longa e rica e uma identidade bem vincada.
Estes desafios exigem capacidade de entender colectivamente as dificuldades e uma vontade firme de as vencer. Implicam também o reconhecer que faz uma enorme diferença querer tomar o destino nas mãos e lutar por objectivos ambiciosos, embora realistas, ou assumir a resignação agridoce da pretensa inevitabilidade do fado.
O voluntarismo animado por uma forte determinação remove montanhas, a apatia do conformismo, do argumento "de que sempre foi assim", gera a incapacidade para progredir.
A educação é, porventura, em Portugal um dos domínios onde melhor se pode observar o contraste entre as duas atitudes: a predominantemente conservadora e a voluntarista, desejosa de modificar estruturas e hábitos anquilosados, e interesses instalados que procuram perpetuar-se a todo o custo.
Mudar é penoso, envolve sacrifícios. É sempre mais cómodo continuar como se tem feito desde há muito, gozar as benesses que o longo tempo e a habituação fazem sentir como naturais e direitos intangíveis.
Para conseguir reformas, mudar, é imprescindível conhecer bem a situação, as deficiências, porque é que as coisas vão mal.
A avaliação das instituições, das suas capacidades de se atingir os objectivos, é, assim, fundamental. A medição dos resultados constitui um ponto essencial dessa avaliação. O ex-governador Jeff Bush, de visita entre nós, em recente conferência sobre a reforma educativa na sua Florida, dizia enfaticamente: "Quem não mede não se preocupa com as coisas." A comparação de resultados entre instituições congéneres representa outro passo essencial nesse processo.
Todos nos recordamos de quão difícil foi, já nos anos 90 do século passado, convencer o Ministério da Educação, temeroso dos sindicatos, a medir a actividade do ensino das escolas, primeiro, a dar a conhecer esses resultados ao público, depois. Foi necessária uma injunção judicial para o conseguir!
Vencida essa primeira etapa, há que ir mais longe: alargar e aprofundar essas medidas e avaliações e, sobretudo, retirar daí resultados em termos de carreira dos professores e das remunerações, e também de oportunidades oferecidas às escolas mais eficientes. E fazê-lo a todos os níveis de ensino: primário, secundário e superior, mesmo que sejam da regedoria de diversos ministros.
O aumento do nível de exigência é sempre tarefa delicada. Algumas injustiças inevitavelmente se cometerão. É preciso, também, ajudar os mais fracos, mas de boa vontade, ou que enfrentem condições económicas adversas. Mas não pode deixar de se prosseguir nas avaliações e daí retirar consequências, sob pena de permanecermos nas inevitáveis mediocridade e ineficiência. Isto, digam o que disserem os beneficiários do statu quo e os sindicatos que os representam.
A actual ministra da Educação criou uma grande esperança. Precisa, é certo, de corrigir alguns erros de comunicação, logo sublinhados com gáudio por quem pretende que tudo fique na mesma. Mas espero que prossiga o caminho que encetou, de bom senso, coragem e seriedade e que não nos desiluda. Deu já algumas provas importantes de que existe razão para confiar."
(o negrito é da responsabilidade do Publicista)
Entretanto, dou de caras com esta relíquia (de 1970!) que vou ouvindo, enquanto trabalho, nas presentes condições, de atestado médico na mão, entre processos disciplinares, a Escola onde trabalho, serviços de saúde e o aconchego de minha casa, tentando cumprir a promessa que fiz ... aos meus alunos!!!




STEVENS CAT lyrics


Beijinhos à minha IRIS, neste 'seu' bonito Domingo de Março!

sexta-feira, março 09, 2007

Eternos ciclos, míticos retornos!

Já tenho evocado, também muito a propósito do que meu mui citado mestre escreve sobre este estado a que o espectáculo chegou, as contingências do inevitável, segundo as muito antigas escrituras políticas platónicas, muito aristotelicamente reformuladas, onde se enunciam as leis da degenerescência da polis, sem entrar em plágio desse Mito do Eterno Retorno, do grande Mircea Eliade.
Hoje, e já depois de ter lido mais algumas de meu supra citado mestre (e a respeito da de hoje), não posso deixar de passar mais uma evocação ao malogrado Jim Morrison, quando este seu desabafo nos induz numa celestial celebração de tudo quanto são os infortúnios que, constantemente, vemos estarem a assolar o quotidiano das nossas vidas. Apenas com um senão: estes dias que temos evocado já não são, assim, tão estranhos (...)!!!
Aqui vos deixo, então, mais esta de 1967 (poderia ser de 2067 ?):







DOORS, THE lyrics

terça-feira, março 06, 2007

Em busca do equilíbrio perdido (!?)

Nestes tempos de grandes encruzilhadas, resta-nos, ainda, a esperança que, nas décadas de 60 e 70, tinha começado a fazer a tão "evitada" mas esperada revolução. Se nunca aconteceu, é porque não há povo que a mereça, pois não é por falta de evocação das razões e, muito mais ainda, não é por não terem sido sublimadas essas razões ao mais alto nível do espírito dos interessados que as mensagens de mudança não foram devidamente assimiladas.


Veja-se, a título de exemplo, hoje aqui com esta dos Moody Blues (Question Of Balance - 1970), como já se gritavam (a fazer ecos de inconformismo) os males 'de alma' (social?) que, hoje, parecem estar, simplesmemte ... na moda! Por outras palavras, parafraseando meu mui citado mestre JAM, a felicidade ainda não consta das Constituições? Porquê?







MOODY BLUES lyrics


PS: Para quem seguir a tentação de fazer a tradução da letra, aconselha-se a não o fazer na versão 'em calão', para usar uma expressão frequentemente tida a propósito de algumas mentes hiper esclarecidas! Nestes casos dispensa-se a tradução, ou mesmo a letra, ou mesmo a mensagem ... dispensa-se tudo, pois esses já não precisam de nada ... (?) ... nunca precisaram de nada!!! «Eles têm tudo, eles têm tudo, eles têm tudo e não vêm nada» (!?)
(Letra retirada do Goggle)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Depois do Inconformismo

Nem todos os que pensam e se dizem de esquerda têm, forçosamente, de o ser. E isso não tem de ser anormal, em si mesmo. Anormal é quando, não o pensando, diz-se sê-lo, fazendo parecer aquilo que não se é. Isso é logro! Isso é socialmente indecente!
É assim que eu vivi a semana que passou, de recordação de José Afonso (o tal 'Zeca' que, para muitos que só passaram a ouvir a Grândola Vila Morena depois de 26 de Novembro de 1975, parece ser propriedade dessa tal esqueda ciumenteira), sem deixar de evocar outras músicas que pertencem, certamente, ao mesmo repertório de queixas, quais lamentações evocadoras do sagrado direito de qualquer povo, sentindo a "essência da existência", exaltar 'a sabedoria e a humildade'.
"Polenta
Allusion aux chants sacrés où le spiritual est emprent de sagesse populaire et d’humilité. À l’image de ce plat du pauvre qu’est la ‘qalantiqa', sorte de flan oranais (que l’on connaît également à Alger sous le nom de “carentita”) à base de poudre de pois-chiche et d’oeufs. Musicalement, on retrouve le mode chaâbi (populaire de la casbah), un clin d’oeil à l’Orient à travers le qanûn-cithare et un final sous forme de “daqqa marrakchia” (batements frénétiques dês mains)."

domingo, fevereiro 11, 2007

Razões que só o coração conhece!

Porque gosto de pensar que outros muitos como eu, certamente também por razões diversas das minhas, com ou sem a mesma consciência que eu tenho a respeito de muitas das questões em que, certamente, esses outros também pensam;
Porque já tenho ouvido dizer que o cidadão está para a polis assim como esta deve estar para o Homem, numa evocação pessoana que contribui para ilustrar bem da nossa pernonalidade básica, num Mundo cada vez mais distante do terreno da realidade em que diz viver, tal é o grau de estupefacção a que este estado chegou;
Porque me lembro de que, na polis, o primeiro elemento é o do sentimento de pertença e não a razão que o compreenda, para antes do dever haver o ser, para antes do saber haver o ter;
SINTO-ME a "navegar" nessa portugalidade imensa através das batidas das cordas do piano, como que me soprando em segredo que hoje já não haverá mais motivo para carpir a humilhação, tal tem sido a manifestação de interesses, vontades, opiniões a arrastar a indignação, por muitos anos esquecida, do flagelo em que muitas mulheres (por vezes já mães) se encontram.
Por isso, mesmo antes de saber o que destas manifestações de participação resulta, interessa-me perceber que é o meu povo que fala, por mais manipulado e constantemente usurpado que esteja a ser.
E porque certamente a chuva, quando bate, "não bate assim ..."
Estas são das tais razões que só os corações conhecem!
"...Navegar é preciso"!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Quem com ferros mata ...

Vejo que meu mui citado mestre JAM ainda persiste (nessa insistência tão inacabada como o é a infinitude do Verbo com que a natura mater nos constituiu) na senda das justificações do seu SIM, naquela procura de, mais além, algo termos que nos enriqueça, se não na Sapiência ou na Prudência, pelo menos na Técnica. Dentro ou fora de qualquer ideia utilitarista, apriorística ou não. Por uma simples razão prática, alguns dos argumentos ali evocados serviriam, de igual modo, para fundamentar as duas beligerantes hostes nesta guerra da IVG, pois, nas palavras do douto cânone, "a utilidade não constitui o critério máximo da vida".
E, porque amanhã ainda é sexta-feira, desejo ao meu mestre as melhoras, sempre naquela insistência tão inacabada como a infinitude do Verbo com que a natura mater nos constituiu ...!

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Sinais do Tempo

Continuo ... pensando que nalgumas das situações mais complexas da vida, pelo menos nessas, tenho de pensar como vivo, mesmo que continue a querer, conscientemente, viver como penso. Não me vejo, a mim como a qualquer outro ser humano (sapiens sapiens), a viver o lindíssimo sentimento de liberdade (natural) de outra forma ou segundo outra premissa que não essa!


Continuo a rever-me na constante e serena consolação de aprender, contemplando, naquele conhecer sem sabor, sem prefiguração, sem ante nem post, sem alto nem baixo, sem lado nem limite que o reduza a qualquer desejo que não seja o de beber a encarnação redundante, sem ânsia de ser o que sempre foi, o da plena liberdade que nos traz a serena consolação de aprender, contemplando!
Resta-me, portanto, a preocupação que nos traz a transparência das ilusões com que perpassam as verdades da sedução non stop, nesse estilo do verbo moderno que é o das mentes industrializadas, hiper racionalizadas, economicamente desenvolvidas com o sofisma da pseudo humanização do Mundo, que é a constante mensagem que acompanha a poluição com que prebendam os povos que continuam a aprender, contemplando, nessa serena consolação que é a da plena liberdade de continuar a ser!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Somos apenas o que a vida depositou em nós

Gostei de revisitar , mais uma vez, o "Ortogal", e de lá ter encontrado, a partir de uma evocação ao nosso Agostinho da Silva, este trecho musical que me lembrou uma das mais conhecidas interpretações de Joan Baez, ainda de finais dos anos 60:

"«Conhecemos tão pouco da vida, do mecanismo complexo que deve ser este do mundo que, segundo me parece, o decidir-se não tem grande valor, senão no que respeita à estima que poderemos manter por nós próprios, à confiança que talvez seja absurda, mas que em todo caso nos permite viver. Creio que, sejam quais forem as circunstâncias, tanto faz decidir-se depois de ter pensado bem um ponto como decidir-se atirando a moeda ao ar... »
Agostinho da Silva, Sete Cartas a Um Jovem Filósofo"

Eu diria aqui, ainda, que cada um de nós é uma parte da vida que não se repete, nesta constante repetição que a vida é feita.
Ela dá-nos tanto quanto cada um consegue percebê-la, nessa acepção meramente existencialista do sentido de posse, que é o mesmo que dizer que o ter é conhecermo-nos, como já diziam os helenistas pitagóricos, pretendendo assim traduzir a vida e o mundo perceptível (percepcionado): quando acedemos ao conhecimento da vida, que em nós mesmos se manifesta, sabemos que somos apenas o que a vida depositou em nós, que quando já não somos é a vida que se recupera, porque só somos a vida e não apenas o que pensamos dela, e que tudo o mais pertence, como um artefacto da ilusão, ao vácuo da imaginação fantasiada, único fundamento dos egoísmos impertinentes (ou egos absurdos).

sábado, fevereiro 03, 2007

Eu diria "Negócios da China"!(?)

Continuo a ver novidades que, na Comunicação para ler, também servem, com alguma pedagogia, a missão pública de informar para formar, valha-nos essa, entre as poucas que ainda restam, das utilidades do nosso erário afazendado (...)


Desta vez, porém, acho que o Manuel A. Pina bateu forte, fortemente, como quem chama por nós, com o intuito de fazer chegar a cada um a opinião, certamente, de muitos quantos também se encontram com o coração, se não na boca, pelo menos nas mãos, ou para o amansar, tal deve ser o estado de encolerização, ou para que não definhe com o Estado a que as coisas estão a chegar!

Mas já vou ouvindo ecos, daqueles por que muitos me atribuíram alguma autoria nas ouvidas que vão fazendo às lições que a História nos vai dando nas situações análogas às que o País, agora mais uma vez, atravessa!
Por essas e por outras, lá vou eu dizendo, novamente, que alguém está a "chamar por ele"!(?)!...


Gente não é certamente, e a vida não bate assim:

"A China da Europa

Das duas uma: ou o Governo engana todos os dias os portugueses quando lhes diz que a situação económica e financeira melhora, a "crise" está a ser ultrapassada e os sacrifícios pedidos a todos excepto à Banca (diminuição de salários reais, despedimentos, trabalho precário, incumprimento das leis, miséria) acabarão em breve, ou então contou o conto do vigário aos chineses ao convidá-los a investir em Portugal porque os salários são baixos e a hipótese de virem a aumentar é menor do que nos novos países da UE. Porque, obviamente, os chineses não farão investimentos em Portugal para durarem apenas um ano. Se a comitiva de Sócrates garantiu aos chineses expectativas altas em relação aos salários baixos dos portugueses é porque, também obviamente, o Governo tenciona prosseguir a política de "os pobres que paguem a crise", pelo menos até os bolsos dos que se alimentam da crise estarem tão cheios que alguma coisa inevitavelmente acabará por cair deles. O que o Governo foi dizer aos chineses foi que, quanto a remuneração e protecção do trabalho, Portugal é uma espécie de China da Europa, pelo que se sentirão em casa. E alguma garantia disso os chineses hão- -de ter tido, pois, segundo os jornais, assinaram já acordos de centenas de milhões de euros."

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Mas que dias, estes 31's de Janeiro

Levantam-se espíritos sobressaltados nestes dias. Mesmo daqueles de quem esperamos alguma responsabilidade, institucional ou não, apenas continuamos a observar, pelo menos em alguns, que persistem complexos de esquerda, causados por antagonismos de direita igualmente xenófoba e não menos maquiavélica. Os devoradores de filhos continuam a encontrar nas peripécias alheias o melhor bode expiatório para os erro que nunca conseguem assumir, tão cobardes são os que andam à sombra das virtudes que, apenas muito dificilmente, poderão alcançar.



Num dia de mais uma aula de Ciência Política, que poderia tornar-se profícua pela ensinamento, devidamente programado na responsabilidade ministerial, do tipo e origem do nosso sistema de governo, torna-se evidente o descalabro de algumas pseudo-responsabilidades, organicamente desorganizadas, que aparentemente coordenam a supervisão pedagógica, tão preocupadas que estão com o linchamento pessoal e profissional das adversidades que criaram, tudo na sombra das tais longínquas virtudes ...



Não digo mais, pois a disciplina burocrática continua a fazer justiça por cima, naquele tal tambor de peles humanas que se negam ao conformismo hipócrita dos situacionistas do ditirambo, esses pseudo-repúblicos que preferem beijar-mão a homens que gostariam de ser rei, com orquestras de que não têm capacidade para maestrar, ...

Deixo-me, neste espírito também evocador, com mais uma excelente bicada que constará nos anais da academia blogueira, de meu mui citado mestre JAM. Ao jeito de um complemento, se meus alunos assim também o quiserem, que não consegui transmitir na aula de hoje, que apenas tratou da sede formal do Poder. Assim o queiram. Mas, para isso, é preciso ler, para só depois se poder perceber e, com isso, ficar a saber o que se deve aprender:

"Conservadores, reaccionários, contra-revolucionários e o 31 de Janeiro de 1891, por um republicano monárquico, sem rei nem república...


Ontem andei por aí em certas bocas mediáticas, desde um comentário que fiz à Lusa, a uma breve entrevista que dei à nova RCP, por sugestão do meu caro irmão-inimigo, José Luís Saldanha Sanches, sobre o que é ser conservador sem medo das mudanças. Nesta última, repeti o que aqui tenho dito e redito: que há uma diferença fundamental entre os situacionistas, os que querem conservar o que está, e os que querem conservar o que deve-ser, estabelecendo a necessária fronteira que separa um conservador de um reaccionário, ou daqueles contra-revolucionários que querem fazer uma revolução em sentido contrário, incluindo a revolução nacional.

Assumindo-me como um liberal à antiga, bem camponês, pouco capitaleiro, e invocando o conservadorismo de Burke, que não era tory, ou de Churchill, que rebentou com o totalitarismo de Hitler, lá invoquei que o homem ocidental é essencialmente do contra (Nós, ocidentais, o que primeiramente somos é anti. Depois é que resolvemos o que havemos de ser, Unamuno) e que o mal do nosso perene situacionismo está num sistema educativo que anda sempre a reboque dos sucessivos politicamente correctos e das consequentes modas que passam de moda, não cultivando o modelo proposto por Dewey para a pesquisa da criatividade pessoal.



Não tive tempo para dizer que subscrevo o grande pedagogo, para quem os valores são tão instáveis como as formas das nuvens...As coisas que os possuem estão expostas a todos os acasos da existência. Não apenas os chamados valores de facto, os bens imediatamente desejados, como os próprios valores normativos, dado que também estes não podem ter pretensão meta-histórica, pois todo o sistema ético é relativo ao meio em que se formou e tornou funcional. Porque todo o meio é um fim e todo o fim é um meio, dado que o fim alcançado é sempre um meio para outros fins.

Porque a utopia normalmente gera o cepticismo e o fanatismo e importa reagir contra a sociedade planeada (planned society) que requer desígnios finais impostos de cima e que, portanto, se baseiam na força, física e psicológica para que nos conformemos a eles. Assim, defende a continuous planning society, que significa libertar a inteligência, mediante a forma mais vasta do intercâmbio comunicativo.

Lamentei que, entre os grandes portugueses, a ditadura dos perguntadores nos leve a ter que escolher entre Salazar, um déspota que foi, e Cunhal, um déspota que não deixámos que fosse, dando a imagem da nossa Avenida da Liberdade que, começando, e bem, nos Restauradores, é encimada pela protecção de um déspota (Pombal).

Disse que o pior dos maus conservadores em Portugal era o Estado-aparelho de poder, onde passámos do conceito de rei absoluto para o conceito de povo-absoluto, não desenvolvendo aquelas sementes de consensualismo que, na pós-revolução, foram assumidas pelo cartismo que a si mesmo se qualificou como "conservador".



Não disse que deveríamos ter desenvolvido as sementes de 1640 ou das revoluções inglesa e norte-americana, que foram revoluções evitadas, porque nos esquecemos sempre que as revoluções são sempre frustradas na pós-revolução, onde o que se pretendeu abolir com a violência jacobina e deitar fora pela janela acaba por entrar pelo sótão dos fantasmas de direita e dos preconceitos de esquerda.

Conservadores do que está não são os portugueses à solta que, quando libertos das teias capitaleiras e castíferas, souberam dar novos mundos ao mundo e geraram esta nossa pátria que é a língua portuguesa de mais de duzentos milhões de homens em abraço armilar.

Bem me apetecia ter citado Popper, na necessidade de combate ao totalitarismo e ao historicismo, defendendo, contra a utopia, o gradualismo reformista, o racionalismo crítico, o individualismo metodológico e aquilo que alguns qualificam como utilitarismo negativo, isto é, que os governos não devem ter como objectivo o aumento da felicidade global, mas antes a redução do sofrimento conhecido.

Porque a mente não é uma tabula rasa, dado sermos memória biológico-cultural, marcados por problemas, isto é, por expectativas desiludidas, esses pedaços de memória que se chocam com outras expectativas e com alguns pedaços de realidade. E o que nós pesquisamos é a solução dos problemas, coisa que só poderemos enfrentar pela imaginação criadora de hipóteses e conjecturas, sendo urgente a criação de ideias novas e boas, onde as hipóteses, como tentativas de solução, devem ser provadas. Mas, por mais confirmações que uma teoria possa obter, ela nunca será certa e quanto mais depressa encontrarmos um erro, mais cedo o poderemos eliminar.

Porque eu posso ser conservador nos valores essenciais, reformista nas metodologias e revolucionário nos objectivos, bem pouco neolib e nada neocon, para que fora de nós não fique um único deus. Os portugueses que, comandados por um "Conselho Conservador", que era maçónico e tudo, enfrentaram os invasores napoleónicos, sempre se souberam reinventar pelas mudanças e, ainda recentemente, passámos, em menos de uma geração, do último império colonial europeu para a plena integração europeia. Tal como fomos precursores na revolução liberal, nas abolições da escravatura e da pena de morte ou na "third wave" da democracia, fugindo à vacina com que Kissinger nos antevia como a repetição de Kerensky.


Por mim, conservador à maneira de Alexandre Herculano, Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva, com eles me irmano a Edmund Burke, a José Ortega y Gasset e a Winston Churchill, em termos de concepção do mundo e da vida. Continuo liberal liberdadeiro, porque, como dizia Raul Proença, o verdadeiro liberal não diz isto é verdade, mas sim que sou levado a pensar que nas circunstâncias actuais este ponto de vista é provavelmente o melhor. Continuo a temer, como o conservador Herculano, todos os prólogos ao cesarismo que querem o homem em molécula e repugna-me ver o homem apoucado, quase anulado diante da sociedade.

Sou tão conservador que até quero conservar a nossa tradição liberal e apetecia dizer aqui o que proclamou Domenico Fisichella em Itália: o nosso património è intessuto di quella cultura nazionale che ci fa essere comunque figli di Dante e di Machiavelli, di Rosmini e di Gioberti, di Mazzini e di Corradini, di Croce, di Gentile e anche di Gramsci. Porque, glosando Manuel Alegre, todos somos filhos de monárquicos sem rei e de republicanos sem república. Mas ainda sonhamos.

Apenas advogo, como Feyerabend, um relativismo à maneira de Protágoras, considerando que o libertador de ontem se pode tornar no tirano de amanhã: não há nada na ciência ou em qualquer outra ideologia que as torne intrinsecamente libertadoras. As ideologias podem deteriorar-se e tornar-se religiões dogmáticas (como, por exemplo, o marxismo). Elas começam a deteriorar-se quando conquistam sucesso e se transformam em dogmas no momento em que a oposição é esmagada e o seu triunfo se transforma na sua ruína.

Aliás, hoje, rememorando o 31 de Janeiro de 1891, eu, como monárquico sem rei, quero homenagear Basílio Teles e Sampaio Bruno, esses republicanos que nunca tiveram república, mestres dessa revolução, coisa enorme e nada. Porque durante todo o dia que durou a revolução de 31 de Janeiro, um caldeireiro trabalhou na sua oficina fazendo sem cessar a pancada do seu martelo e, sem por um momento só, levantar os olhos para o céu, para o ar, para a vida: as revoluções que não conseguem fazer parar um martelo que bate numa caldeira de cobre, não conseguem fazer parar forças sociais de muito mais imperiosa função, porque revolução é uma coisa enorme e afinal não é nada (João Chagas).

Ainda temos a consistência das alforrecas: esta crise com efeito veio provar que Portugal pede um tirano; mas a nossa desgraçada pátria nem tiranos tem. Tudo é papas. Temos a consistência das alforrecas... O ministério que, parece, vingará, é uma espécie de tambor que todos vão malhar à vontade e que será esmagado miseravelmente (Joaquim Pedro de Oliveira Martins, em 9 de Fevereiro de 1891).

posted by JAM"

terça-feira, janeiro 30, 2007

Que ninguém diga Sim, Não, nem muito menos Nim!

Oiço e vejo mais um dos espectáculos mediáticos de discussão pública! Mas gostaria de ver realizada aquela pretensão minha, talvez ilusão, de que há plateias de gente que sabe falar, mas porque primeiro, antes de praguejar e aplaudir, pensa sobre o que sabe ouvir!
Eu que, como muitos, já me cansei, por alguns bons anos, de ver, por exemplo em canais televisivos já acessíveis a muitos, programas de debates em que a participação dos presentes (e não só), por ser serena e ordeira, não perde uma ínfima parte da plenitude por que tanto a mediadora de ontem interveio! E, em abono da verdade se diga, sem querer tomar partido, alguns dos adeptos do Sim manifestaram-se segundo os preceitos de comportamento social característicos dos que não sabem conviver com a diferença de opinião, decisivamente marcantes nos que tentam impôr um raciocínio unidimensional que segue o trilho totalitário dos déspotas esclarecidos!
Mais uma vez, espero pelo meu país! Aqui como noutras instâncias discursivas, espero pelo meu país feito de gente que o mereça! De gente que sabe o que pensa, para medir o que diz e, assim, se sentir bem com o que faz! De gente que só o será quando souber que a sua liberdade só pode ir até onde começam as liberdades dos outros, naquele tal caminho colectivo em que o respeito que me é devido é feito no respeito que eu tenho pelos outros!
Que saudade esta espera me provoca! De ver os mais interessados (o grupo dos potenciais alvos da lei sobre a IVG) a protagonizarem estas representações públicas, de que certamente sobressairiam proféticas mas pertinentes conclusões como:
1. a inevitabilidade do aborto;
2. a necessária reivindicação de condições dignas para a sua realização;
3. a definição de um enquadramento legal não penalizador, observadas, por um lado, as expressões volitivas do agente activo (os progenitores que a tal se propõem) e do agente passivo (de quem, pública ou particularmente, está autorizado a realizar este tipo de operações); e, por outro lado, as responsabilidades advenientes, ou seja, o apuramento das imputabilidades em caso de, podendo ter tomado uma opção, se ter tomado a outra;
E, consequentemente,
4. a reclamação de condições de acolhimento institucional compulsivo, caso uma mulher não esteja, subjectiva e/ ou objectivamente, em condições de assumir a maternidade.
Pois, pior que tudo para os adeptos do Sim, é que muitos portugueses irão, certamente, votar Não à questão que lhes vai ser posta, sendo que também são pelo Sim à pretensão de um quadro legal que não ofenda a dignidade das mulheres em questão!
Assim, talvez ...

terça-feira, janeiro 23, 2007

Esperando, ... esperando vou escutando e aprendendo, ...

Leio, como de costume de um fôlego, os posts de meu mui citado mestre JAM. Como este serve, por todos, para bem ilustrar a sua posição face a este polémico e deturpado acto de manifestação democrática que é a expressão referendatária da vontade popular sobre a IVG (a polémica da questão reside, desde logo, nas múltiplas designações com que têm sido abordadas as diversas perspectivas de encarar este fenómeno, essencialmente, humano).
Mas, logo de seguida, e por acaso nos 'mergulhos' que costumo fazer, também, a partir do tempo que passa, dou de caras, a partir do Casa de Sartro, com o alameda digital, onde encontrei muitas e boas razões para aprofundarmos, académica, filosofica e, acima de tudo, despreconceituadamente, esta questão a sufragar no próximo dia 11 de Fevereiro.
Aqui deixo, por isso, estas duas exposições na íntegra, as quais muito bem poderiam constituir a melhor aula de filosofia política, de moral, de retórica ou, muito simplesmente, de apontamento crítico ao jeito da mera participação cívica para qualquer cidadão:

"Há uma razão humana que governa todos os povos da terra
Continuo a ouvir, ver e ler perlengas bispais sobre a IVG como pena capital, as quais constituem uma espécie de caricatural fuga ao que deviam ser os tempos de antena da campanha do "sim". Dou assim razão a Bergson, para quem o homem é um animal que sabe rir, porque não há nada de cómico fora do que é propriamente humano. É que o cómico nasce quando os homens reunidos em grupo voltam a sua atenção para um deles, calando a sua sensibilidade e exercendo só a sua inteligência.
Portanto, sobre a matéria, quase me apetece citar José Ortega y Gasset, o tal espanhol que, desde 1942 até à data da sua morte, sempre se disse "residente em Lisboa" (no nº 10 da Avenida 5 de Outubro, diga-se), para quem quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar. Porque para falar tem que mentir. E o homem que aparece antes de mais entregue ao exercício intelectual não tem o direito de mentir. Acontece apenas que, de vez em quando, há que seguir outro dito do mesmo mestre: reivindico inteiramente o direito de me manifestar tal como sou. Ingresso na política, mas sem abandonar um átomo da minha substância... Reclamo o pleno direito de se fazer uma política poética, filosófica, cordial e alegre. Outra coisa seria coarctar-me injustamente.
Daí que me apeteça sublinhar que nunca foram os prelados que levaram à abolição da pena de morte em Portugal. Estavam presos demais aos autos de fé e ao caceteirismo do partido do Ramalhão, e não consta que, entre os dogmas, tivessem o princípio de abolição de coisas como a escravatura ou a pena de morte. E não mentirei se sublinhar que tais conquistas se devem a famílias humanistas daquela parcela do Ocidente que, mergulhando nas profundidades do estoicismo greco-romano e nas irmandades medievais, faziam parte daquela corrente que vai de Beccaria a Ortega y Gasset, misturando Locke, Montesquieu e Kant.
Os senhores bispos são ilustres representantes de um legado político-cultural humanista e libertador, mas dele não têm o monopólio. E não convém que atirem pedradas aos telhados e janelas dos outros, porque basta chegarem a casa e achar as suas quebradas. Quem aboliu a pena de morte em Portugal para crimes políticos foi o Acto Adicional à Carta, de 1852, obra da Regeneração e dos ilustres seguidores e companheiros de valores de Alexandre Herculano, o tal eu que se opôs às circunstâncias do então clero. Quem a aboliu na generalidade para todos os crimes foi o acto legislativo de 1 de Julho de 1867, o da fusão liberal, dos companheiros de valores de Vicente Ferrer de Neto Paiva e António Luís de Seabra.
Diremos, a este respeito, que os indivíduos só começaram a ser vistos como sujeitos activos a partir do século XII, com o desenvolvimento da Escola dos Glosadores e com o proto-individualismo franciscano. Só a partir de então é que a teoria e a prática começaram a distinguir-nos do grupo, principalmente quando se iniciou o processo de conquista da primeira das liberdades: o direito à segurança, o direito de cada um à apropriação do seu próprio corpo. Porque até então havia um poder do todo sobre o corpo de cada um, havia o ius vitae necisque, um poder de vida ou de morte, que o paterfamilias havia transmitido ao princeps.
Foi então que começámos a deixar de ser escravos, quando nos passámos a distinguir das coisas. Quando o homem passou a ser mais que um simples ter e, por isso, não pôde continuar a ser um simples tido. Quando o homem passou a exigir um direito penal humanista, onde a definição dos crimes deixou de ser retroactiva, onde o processo proibiu a tortura, onde as penas cruéis foram abolidas e a própria pena de morte começou a ser posta em causa. Quando os homens começaram a ser humanos, pensados à imagem e semelhança de um Deus em figura humana.
Até porque importa recordar, conforme as palavras de Battaglia, que não existe nenhuma grande conquista da humanidade no sentido da liberdade e do progresso, que se não ligue ao nome de um filósofo do direito.
Da extinção da escravatura à abolição da pena de morte, da igualdade de oportunidades entre pessoas de sexo ou etnias diferentes, à aplicabilidade política de um conceito de cidadania activa – com uma igualdade entendida não apenas como igualdade da lei ou perante a lei, mas antes como igualdade pela lei, isto é, como igualdade de oportunidades, como igualdade perspectivada com o sal da liberdade, da justiça e da solidariedade –, é todo um secular processo de luta pelo direito como dever-ser que, muitas vezes, tem de assumir-se contra o direito que está posto na cidade.
Como salienta Metz, a dinâmica essencial da História é a memória do sofrimento, como consciência negativa de liberdade futura e como estimulante para agir, no horizonte desta liberdade, de modo a superar o sofrimento. Uma memória do sofrimento que força a olhar para o “theatrum mundi” não só a partir do ponto de vista dos bem-sucedidos e arrivistas mas também do ponto de vista dos vencidos e das vítimas.
Determinar qual o além do direito tem sido, aliás, constante tarefa dos que pensam o direito. Desse direito, conforme a definição de lei dada por São Tomás de Aquino, como uma ordem elaborada pela razão tendo em vista o bem comum e promulgada por aquele que tem o encargo da comunidade. Dessa lei que, conforme Montesquieu, tem de ser a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. Desse direito que se é verdade além dos Pirinéus não pode ser mentira aquém ou além de qualquer barreira geográfica ou mítica.
Somos portugueses, pensamo‑nos portugueses, ensimesmando uma história que também foi precoce na consideração do homem como sujeito, no sentido vincadamente existencial de dono do seu próprio corpo, tanto na abolição da escravatura como na abolição da pena de morte.
Por mim, quero retomar o estoicismo romano de Cícero, para quem, das leis, todos somos escravos, para que possamos ser livres (legibus omnes servi sumus, ut liberi esse possimus). Para bons compreendedores, meias palavras bastam. Releiam os trabalhos de Eduardo Correia e Guilherme Braga da Cruz, no centenário da abolição. Ambos sabiam que a nossa tradição humanista sempre juntou o humanismo laico ao humanismo cristão. E não consta que o segundo, consolidado católico tradicionalista, tenha saneado da história o patriotismo iluminista, o patriotismo liberal e o patriotismo republicano. Nem todos os que não seguem a sacristia têm de ser da cavalariça."
posted by JAM

"O Um livro por Abrir
por Rafael Castela Santos
Comprei recentemente um livro sobre Murillo, o grande pintor da Santíssima Virgem Maria. Está ali, por abrir. Olha-me a partir da prateleira ao mesmo tempo que da minha cama eu o contemplo enquanto escrevo no meu portátil. Em boa verdade ainda não tive muito tempo para o apreciar. Quando o comprei sabia já que era um bom livro. Um grande amigo e excelente bibliófilo em quem deposito toda a confiança, tinha-mo recomendado. Desde que ali o coloquei tenho reparado na sua sobrecapa branca em papel couché. Na lombada, as letras do título são delicadas. Segundo me asseguraram, o texto sobre Murillo é excelente. Analisa mesmo a época em que este viveu tanto do ponto de vista histórico como do das ideias. Ainda não o li mas sei que é assim. A qualidade das litografias é impressionante. Da minha cama não as posso ver, mas já sei que me vou deliciar a apreciá-las assim que puder. Até sei que tem datas cronológicas e inclusive diagramas de alguns dos seus quadros, com a explicação de certas técnicas pictóricas. Também daqui os não posso ver mas positivamente sei que estão ali. Não deixa de ser um livro pelo facto de eu ainda o não ter aberto, por não estar neste momento nas minhas mãos, pelo facto de ainda não o ter lido. É e será sempre um livro. Inclusive, um excelente livro a partir do momento em que o seu autor o concebeu. Um grande livro. Mesmo que ainda não esteja aberto.

Um homem e uma mulher fizeram amor. Um óvulo recebeu um espermatozóide entre milhões, apenas um. E pelo milagre da fecundação essas duas células transformam-se num ser humano. Porque no momento em que essas duas células (óvulo e espermatozóide), cada uma com 23 cromossomas, se unem e se transformam numa única célula de 46 cromossomas, existe já um ser humano. Com a sua estatura, a cor do seu cabelo e dos seus olhos. Mesmo que ainda se não veja. A sua vulnerabilidade a certas doenças. Mesmo que ainda as não tenha sofrido. O seu coeficiente intelectual. Mesmo que ainda não saiba uma só palavra. O seu metabolismo e a totalidade da sua bioquímica. Embora dependa ainda e completamente do metabolismo da sua mãe. Inclusive, uma percentagem significativa da sua personalidade está codificada nesses genes. Mesmo que não tenha dito sequer uma única palavra. Nesse livro por abrir do ADN reconhecem-se todos estes dados e instruções. E muitos milhões mais. Estão aí todas as características de um novo ser humano. Todas estão aí, mesmo que ainda não tenham sido "lidas".

Ao contrário do meu livro por abrir do qual existem algumas centenas ou milhares de cópias idênticas, esta nova pessoa (literalmente recém concebida) é única. Não há nem haverá outra como ela em toda a história da humanidade, por mais que esta se prolongue.

Se aceitamos que o meu livro por abrir é um livro, como é que alguns se negam a reconhecer que esse novo ser humano é um ser humano pelo simples facto de ainda não ter sido "lido", de não se ver, de não ter crescido, de não ter atingido todo o seu potencial - que já se encontra neste óvulo fecundado - acto, para empregar a terminologia aristotélica?

Será menos pessoa ou deixa mesmo de o ser por estar ainda fechada, apenas fechada no ventre de sua mãe? Mas o meu livro não deixa de ser um livro pelo facto de ainda estar fechado e colocado numa estante.

Esta pessoa é uma pessoa desde o exacto momento em que foi concebida. Nem um segundo antes nem um segundo depois.

E, graças ao que ficou dito, esta nova pessoa tem liberdade. Liberdade para escolher. Liberdade para optar pelo bem e pelo mal. Liberdade para fazer o bem ou para seguir outro caminho.
Ai Já me esquecia! Desde o instante da sua concepção essa pessoa tem uma Alma eterna. Mas essa já é uma outra história: a história de um livro aberto com as páginas em branco por escrever."
E, mais adiante neste mesmo sítio, podemos ler este excelente exercício de retórica:
"O que não se fala no referendo
por Manuel Azinhal
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

É frequente numa discussão acabar por esquecer-se o ponto de partida.Assim acontece notoriamente no caso do referendo que se anuncia, em que o debate geralmente se afasta do teor exacto da pergunta que é colocada à votação, e foge das consequências das respostas possíveis.

Normalmente discute-se o aborto, em abstracto, no registo "eu acho que", perdendo-se a noção de que o referendo incide sobre uma pergunta em concreto, da qual deverão em princípio decorrer consequências legislativas.

Imagine-se a resposta sim.
Os que prontamente declaram querer votar sim (isto é, que concordam com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado) admitem que a sua resposta signifique concordância com a penalização do acto quando praticado fora de estabelecimento de saúde legalmente autorizado? E são pela penalização do acto quando praticado após as primeiras dez semanas?A lei penal deve portanto manter a pena para a interrupção voluntária da gravidez que seja realizada após as primeiras dez semanas e/ou fora de estabelecimento de saúde legalmente autorizado?É o que resulta iniludivelmente da interpretação a contrario da pergunta em análise...

Pelo que lhes ouço, creio sinceramente que não é este o significado que dão ao sim os mais empenhados defensores dessa opção.

Porém, é essa a pergunta que é colocada a todos os votantes. E, tal como está, verificando qual o sentido mais comum que o mais comum dos falantes do português pode extrair da fórmula, não há dúvida que ao perguntar pela concordância para uma despenalização em certas condições dadas está a pressupor-se a estabilidade da penalização para os casos que se situem fora desse âmbito restrito.

Ora sendo assim é legítimo concluir que a pergunta referendada pode distorcer os resultados da votação, no sentido de facilitar a resposta sim.

Bastava que a pergunta apresentasse claramente o verso e o reverso para os resultados serem bem diferentes.

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, mantendo-se a penalização qundo não se verifiquem tais requisitos?"Nesta formulação o sim significava inequivocamente concordância com a punição da interrupção voluntária da gravidez realizada ou para além das dez primeiras semanas, ou fora de estabelecimento legalmente autorizado. Mas quantos dos entusiastas do sim continuariam a manter a sua resposta?

Se a minha observação está correcta, o resultado sim parece conduzir a um impasse político. Com efeito, a legislação ordinária que deverá conformar-se com o que resulta da pergunta aprovada não satisfará os mais ardentes partidários do “sim”. Só pode estar de acordo com a perspectiva dos que votarão “sim” convencidos de que estão a dizer “sim” apenas ao que está expresso, e que votariam “não” se lhes fosse posta a questão em termos de o seu “sim” implicar também concordância com o que ali não está.

Como é fácil de calcular, se vier a acontecer essa conformidade legislativa com o sim que é referendado (continuarão então a ser julgados e punidos todos os abortos clandestinos, que serão todos os praticados fora dos tais estabelecimentos autorizados e todos os efectuados para além das dez primeiras semanas) nada se modificará na actuação política dos actuais combatentes pelo sim.

Eles não aceitarão que "as mulheres sejam julgadas", que a "interrupção voluntária da gravidez" seja punível, seja o acto praticado onde for e seja qual for o tempo de gestação do feto.

O que vale por dizer que a luta vai continuar. Indefinidamente.
Teria sido bom que quem se pronunciou pela clareza e constitucionalidade da pergunta tivesse prevenido estes aspectos, que não me parecem dispiciendos.

Para não maçar, desisto de entrar pelas questões relacionadas com a protecção da vida imposta pelo art. 24º da CRP e o futuro estatuto jurídico do embrião. Na verdade, se não existir protecção penal para o embrião (até às dez semanas de vida estará inteiramente na disponibilidade da progenitora, que o poderá destruir por simples acto de vontade, independentemente de qualquer causa ou justificação), e não for estabelecida outra qualquer forma de tutela jurídica desses bens (presumo que bens jurídicos ainda serão), qual será então a sua natureza jurídica? Coisas? E se forem coisas, devem considerar-se in comercium ou extra comercium? Repare-se que esta distinção teórica de res extra comercium ou res in comercium se revestirá da maior relevância prática, já que como se sabe existem interesses económicos na utilização dos embriões.

E como se irá harmonizar a legislação acerca dos embriões produzidos laboratorialmente, segundo técnicas de reprodução artificial, v. g. fruto de fertilização in vitro ou clonagem, com a situação jurídica dos embriões gerados naturalmente? Acontecerá que uns gozarão de protecção jurídica e outros não?São muitas perplexidades para upoucas respostas.

Como procurei demonstrar, ao referendo anunciado suceder-se-á uma situação curiosa: caso vença o não começarão de imediato a desenvolver-se os esforços para que o sim prevaleça por qualquer outro modo, v. g. por via legislativa, ou se for preciso através de um outro referendo; e se o sim ganhar assistiremos aos mesmos esforços, agora para consagrar na lei ordinária soluções que sejam mais aceitáveis para os guerreiros do sim, porque a simples consagração legislativa do que consta da pergunta referendada não satisfaz de forma alguma os seus objectivos.

Não creio que tenha feito uma grande descoberta, e nem vejo que alguém, seja qual for a sua posição, vá contra este meu prognóstico.Estamos indubitavelmente perante uma guerra para continuar, e engana-se quem pensar o contrário.

Pense-se em que nenhuma das situações levadas a tribunal e que provocaram enormes campanhas dirigidas à opinião pública (Setúbal, Aveiro, Maia) teria destino diferente se estivesse em vigor o que a pergunta referendada sugere. Os casos referidos, que pela lei actual são crime, continuariam a sê-lo se estivesse consagrada a posição constante do referendo.

Não é conhecido nenhum exemplo que tenha sido submetido a julgamento (primeiras dez semanas???) e que fosse abrangido pela despenalização proposta na pergunta sujeita a referendo.O que mudaria então na atitude dos que se manifestaram na ocasião por todos os meios, desde as colunas de opinião às portas dos tribunais? Obviamente, nada.

Anoto ainda os equívocos, significativos, em que o debate continua a processar-se. Não me refiro já ao uso eufemístico da expressão "interrupção voluntária da gravidez" para fugir ao termo mais cru e verdadeiro, aborto. Estou a pensar por exemplo na insistência obsessiva em apresentar a norma penal como "perseguição às mulheres" (tem que se repetir com especial ênfase a palavra "mulheres"). A verdade é que a norma, como qualquer outra de estrutura semelhante, prevê um comportamento que define como crime e estabelece uma pena para o seu agente - abstraindo de quem possa ser esse agente. Pode ser mulher ou homem. Incorre no crime de aborto a mulher que de modo consciente e deliberado pratique aborto sem si própria, e incorre no mesmo crime o homem ou a mulher que o pratique em outrem. E recorde-se que pode ser punido como autor tanto o autor material (por exemplo o médico, o enfermeiro ou o prático que o faça) como o autor moral (aquele, por exemplo namorado, marido, amante, que determine outrem a realizá-lo). Penso que neste ponto me responderiam que sim senhor, assim é teoricamente mas na realidade só aparecem mulheres a responder por esse crime. Respondo que é verdadeira a observação, mas por um motivo completamente diferente do que estaria a pensar o meu imaginário interlocutor: a razão por que têm respondido nos tribunais portugueses por crime de aborto mais mulheres do que homens reside simplesmente no facto de entre nós quase não existirem enfermeiros-parteiros - só há enfermeiras-parteiras.

Abreviando, estou eu a querer dizer o seguinte: a previsão legal do crime de aborto serve para muito mais do que para perseguir mulheres grávidas. Serve essencialmente para perseguir por esta via quem faz negócio dessa prática. E que com a despenalização continuará no ramo, agora de porta aberta, ou passará a trabalhar nas clínicas espanholas. Fala-se só nas mulheres grávidas para esquecer o facto incómodo de os despenalizados serem fundamentalmente os outros (os que vivem disso, e os que levam a isso).

Queria deixar ainda uma nota quanto ao tremendismo das descrições do pretenso flagelo punitivo. Quem frequenta todos os dias tribunais sabe que é acontecimento raro um processo por crime de aborto. A esmagadora maioria dos advogados e dos magistrados portugueses nunca viu nenhum. Procure-se nas estatísticas e constate-se a insignificância. A despenalização vai resolver o quê, a não ser a impossibilidade legal de exploração comercial da actividade?Finalmente, uma observação que gostaria de poder desenvolver em futuro escrito. É sabido que a norma jurídica se caracteriza além do mais pela sua generalidade e abstracção. Tal implica que a construção normativa de um tipo criminal tem que ter como referência a conduta-regra a que se atribui desvalor jurídico, aquela que possa constituir o paradigma do que se pretende censurar penalmente, aquela a que se devem subsumir as concretas condutas humanas submetidas depois a apreciação e valoração. Não se pode edificar o direito penal tendo como referência circunstâncias excepcionais, desvios ao que é a conduta-padrão integrante do crime. A generalidade da norma é que terá que dar-lhe a flexibilidade necessária para dar resposta tanto ao que é a regra como aos seus desvios.

Todavia, na discussão sobre a incriminação do aborto, conduzida pelos defensores da despenalização e liberalização, o ponto de partida situa-se sempre em situações extremas. Apela-se ao dramalhão e à emoção fácil. Parte-se de perguntas que em geral contêm a própria resposta. "Então e se uma mulher se vir forçada a abortar por..." dá vontade de responder que se alguém foi forçado a algo então não pode haver crime porque não estamos perante uma acção voluntária. Em todo o caso, a técnica é sempre a mesma: atirar com situações que em rigor podem e devem ser tratadas a nível das causas de exclusão da culpa ou da ilicitude para atacar a própria norma incriminadora - que evidentemente não contende com os princípios gerais, ou as previsões específicas que existirem, respeitantes a exculpação ou legitimação.

A discussão está desse modo viciada logo nas premissas, e nada pode trazer de útil e esclarecedor.

Mas talvez a confusão seja mesmo intencional."

segunda-feira, janeiro 22, 2007

À espera do meu país

Por que não ter a coragem do sonho que faça acontecer, ainda outra vez, por ventura ainda melhor, este nosso Portugal de sempre?
Hei-de ser, cada vez mais, mais uma voz para cumprir aquele desígnio que a armilar eternizou para lá dos limites das consciências mortais, sem tempo para a pequenez dos egoismos!
Viva a cosmopolis e a cidadania universal, feita na infinita liberdade das diferenças de cada ser!

sábado, janeiro 20, 2007

Vous vous situez à gauche ...

Depois de ler mais um dos posts de meu mui citado mestre JAM (em nítido grande desabafo de um dos muitos enredos angustiantes desta polis pseudo-democrática), descubro-me a fazer mais um acto de contrição, mas daqueles que podem ser muito chocantes para aquela esquerditice ciumenta e antipluralista, que pintam o espectro luminoso de um absoluto cinzentismo progressista ...!? Visito, então, mais um sítio que me revela algo do meu posicionamento sócio-político, na perspectiva do espectro partidário do país a que se refere, a França (e aqui, confesso, as devidas correspondências partidárias revelam, preocupantemente, uma falta de relação entre o significante e o significado), e também chego a conclusões muito parecidas (vá-se lá saber porquê ...) às daquele meu Professor, certamente por razões não totalmente coincidentes com as suas - Eu, de esquerda, me confesso?... (Cito):
"Vous vous situez à gauche.
Les partis dont vous êtes le plus proche (dans l'ordre) :
1. Cap 21 (le mouvement de Corinne Lepage) mais, en règle générale, vous accordez plus d'importance au contexte dans lequel les gens évoluent (ou moins d'importance à leur responsabilité personnelle).
2. Génération Ecologie mais, en règle générale, vous accordez plus d'importance au contexte dans lequel les gens évoluent (ou moins d'importance à leur responsabilité personnelle).Le(s) parti(s) qui vien(nen)t ensuite :
3. le Parti Socialiste mais vous ne partagez pas toujours les mêmes opinions sur le rôle de l'Etat dans le domaine économique ou social.
4. l'UDF mais, en règle générale, vous accordez plus d'importance au contexte dans lequel les gens évoluent (ou moins d'importance à leur responsabilité personnelle).

Pour obtenir des explications sur ces résultats et sur les profils politiques de tous les partis :" (...)