quarta-feira, abril 19, 2006

Hoje... de Outros Tempos

(1) A natureza é dos "indígenas", mesmo quando Portugal ainda era uma potência mundial (2); (3) e ... como nasce o Partido Socialista!

Como sempre, há nas efemérides uma como que natural escolha/ selecção subjectiva que, na história dos eventos, tendemos a operar.
1. E, porque para uns este dia evoca a trizteza do destino das populações indígenas do Brasil, e para outros o Índio é lembrado no calendário ambiental (consideram-no as duas referências aqui citadas, com alguma frieza realista, como um factor de preservação ambiental, mesmo que os processos de desenvolvimento colonialista e capitaleiros os tenham relevado ao esquecimento), eu prefiro a versão de Aldous Huxley na fantástica obra que é o Admirável Mundo Novo, ou a realidade fielmente interpretada na obra cinematográfica realizada por Roland Joffré "A Missão", contrapondo as artificialidades do "fardo do homem branco" ao teocratismo naturista, a exemplo do nosso P. António Vieira, de que os jesuítas sempre foram, também, eloquentes transmissores: ("Uma das marcas relevantes da espiritualidade franciscana, que de algum modo se pressente no Santo português, é o entendimento do mundo do homem no quadro de uma interioridade que não o fecha sobre si próprio, estimulando um movimento de abertura e de relação solidária a tudo o que o cerca, no âmbito de um já muito vincado optimismo na valorização da criação como obra de Deus. A espiritualidade antoniana permanecerá muito permeável, na forma como viveu a perspectiva da interioridade e da pobreza, ao concreto, à natureza e à relação humana. A interioridade acentua a ideia de dependência em relação aos outros homens bem como ao conjunto da criação, numa espiritualidade eminentemente prática e vivencial" - in Pedro Calafate, retirado do Google).
2. Mas a História também nos dá como que ironias do destino. Senão, vejamos o que, neste dia 19 de Abril de 1648, contingentes significativos de índios fizeram contra as tentativas de usurpação holandesa das nossas possessões ultramarinas, também no Brasil, aqui referidos no Recife... .
Como ironicamente, poderíamos ter perdido a que eraconsiderada a "jóia da Corôa" ... .
3. Tempo ainda para fazer referência a essa transformação da Acção Socialista Portuguesa, neste dia de 1973, na então Alemanha Ocidental, nesse tão curioso Partido Socialista Português (PS), quando o marxismo ainda não era peça arqueológica da ideologia da acção.
Senão, vejam-se, de entre os documentos referentes ao acontecimento, por exemplo o Relatório de Mário Soares ou o seu Manuscrito aonde o fundamentou, apresentados na ocasião.
"No dia 19 de Abril de 1973, na cidade alemã de Bad Munstereifel, militantes da Acção Socialista Portuguesa idos de Portugal e de diversos núcleos no estrangeiro, reunidos em Congresso, aprovam, por 20 votos a favor e 7 contra, a transformação da ASP em Partido Socialista. Finda a votação, todos os congressistas aplaudiram de pé a deliberação. Eram 18 horas."
Esta também será, certamente, mais uma das ironias da nossa História!?

domingo, abril 16, 2006

Hoje ... de Outros Tempos

E quanta história não há por contar…?

17 de Abril

- de 1969. Começo da Crise Académica de 1969, com greve às aulas e boicote aos exames de Junho, provocada pela prisão pela PIDE de Alberto Martins, presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra, por pretender usar a palavra na cerimónia de inauguração do novo Edifício das Matemáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, presidida pelo Presidente da República, Américo Tomaz. O ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva, encerrará temporariamente a Universidade.
(Retirado de “O Portal da História”, www.arqnet.pt/portal/calendario/abril.html)

Revolta estudantil de Coimbra. Incidentes desencadeados quando a recém eleita direcção da Associação Académica de Coimbra, através dos seu presidente, pede para falar na cerimónia, Tomás recusa. Foi o rastilho para o movimento acirrado pelas prisões feitas pela polícia dos dirigentes estudantis. Até Outubro a cidade de Coimbra vai viver em estado generalizado de desobediência cívica. (In “Destaques”, C.E.P.P., ISCSP-UTL.)

Certamente que noutras efemérides se poderão evocar tantos outros episódios da luta estudantil que eu, como muitos companheiros, travámos: lembro-me, para falar de figuras conhecidas do público, do Dr. António Costa Pinto, o então camarada Tony - a quem só revi uns quase 20 anos mais tarde, no ISCSP, na apresentação da tese de doutoramento do seu amigo e já falecido César de Oliveira -, e das inúmeras actividades que com outros desenvolvíamos – Rui Gomes, o nosso “Tarzan”, não pode ficar esquecido -, desde as noitadas de trabalho de publicação na AE do IST, as R.I.A.’s - Reuniões Inter-Associações - que em várias faculdades tinham lugar, até às manifes que por toda a capital se realizavam, … frente aos inúmeros adversários sociais e políticos da altura, na transição da década de 1960 para a de 70, com a evidente influência que os percursores coimbrãos incutiram no espírito de contestação estudantil (não só universitário, mas ao nível generalizado do ensino secundário) a partir do nosso Maio de 68, que se deu a partir de 17 de Abril de 1969. Depois, … bem, o melhor é perguntar à História, essa transcendente racionalização do passar do tempo que só o tempo, melhor que ela, sabe ensinar … .

Vamos “ver” o filme? Então vá lá:

Decorria o ano lectivo 1968/69. Portugal vivia um período tensão, submetido a um governo fascista, que ao longo dos anos cria um clima de tensão provocado pela Guerra Colonial, pela censura à impressa e aos meios culturais, e a perseguição a todos aqueles que se opunham ao regime.
Neste contexto social levanta-se a voz discordante dos estudantes do Ensino Superior e Coimbra é quem ergue a bandeira, defendendo a liberdade, a autonomia e a democratização do Ensino Superior.
A repressão era bem visível no contexto Universitário: a Associação Académica de Coimbra tinha à frente dos seus destinos uma Comissão Administrativa nomeada pelo Estado. Entre 1965 e 1968 não foi permitido aos estudantes a escolha dos seus corpos gerentes.

Em 1968, por iniciativa do Conselho de Republicas (CR) e de vários Dirigentes de Organismos Autónomos, foi criada uma Comissão de Pró-Eleições: o objectivo era de promover o Acto Eleitoral, sendo apenas possível após a recolha de 2500 assinaturas num abaixo assinado que foi entregue ao Reitor da Universidade de Coimbra, Andrade Gouveia.
Após vários recuos e avanços, as eleições realizam-se no final do mês de Fevereiro. Comparecem a este acto eleitoral duas listas: a do Conselho de Repúblicas (CR) e a do Movimento de Renovação e Reforma (MRR). O Conselho de Repúblicas ganha as eleições com cerca de 75% dos votos, avançando com uma linha crítica de contestação à Universidade e a todo o Regime em geral.
Um mês mais tarde a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra eleita é convidada para a cerimónia de inauguração do edifício das Matemáticas da Faculdade de Ciências. A DG não só aceita o convite como afirma publicamente a intenção intervir na cerimónia proferindo algumas palavras de descontentamento sobre a situação do ensino da Universidade de Coimbra e no resto do país.
"Em conversa tida com o Magnifico Reitor expusemos conjuntamente (Associação Académica de Coimbra e a Junta de Delegados das Ciências), a nossa pretensão em nos fazermos ouvir. Foi-nos alegado:
1. O Magnífico Reitor ao discursar, representava a Universidade;
2. A possibilidade de um estudante falar vinha prejudicar as prescrições protocolares;
3. O senhor presidente da república tinha de visitar o edifício, o que não lhe permitia um alargar da secção; … verdadeiramente conscientes, dum dever irmos esgotar todas as vias para que os estudantes, estando presentes, possam participar na sessão inaugurativa"
Na manhã de dia 17 de Abril de 1969 vivia-se em frente ao Departamento de Matemática um cenário pouco característico para uma ditadura, onde as palavras de ordem eram: "Impõe-nos o diálogo de silêncio", "Intervenção das AEs na vida e reforma da Universidade", "Ensino para todos", "Estudantes no Governo da Universidade", "Exigimos Diálogo", "Democratização do Ensino".


No interior do edifício, na actual Sala 17 de Abril, o presidente da DG/AAC, Alberto Martins, acompanhado por Luís Lopes, presidente do TEUC, e Luciano Vilhena Pereira, presidente do CITAC, pede a palavra a Américo Tomás, Presidente da República, que lhe responde de forma inconclusiva.A cerimónia termina abruptamente e toda a comitiva se retira protegida pelos agentes da Pide/DGS.
Nessa noite Alberto Martins é preso à porta da Associação Académica de Coimbra por volta das duas horas da madrugada.
A notícia da prisão de Alberto Martins corre rapidamente, os estudantes mobilizam-se em frente à esquadra, originando confrontos e feridos. Na manhã seguinte Alberto Martins é libertado. Durante a tarde do dia 18 há Assembleia Magna, resultando na conclusão da necessidade do aumento da participação activa dos estudantes na vida universitária.
Decreta-se o "Luto Académico" a 22 de Abril.
O período do "Luto Académico" e da "Greve às Aulas" caracterizou-se pelo debate em torno dos problemas das faculdades, da Universidade e do país. As iniciativas de contestação ao regime, também se repercutiram nas actividades culturais e desportivas, ao ponto da Queima das Fitas de 1969 ter sido cancelada:
"O Conselho de Veteranos decretou o luto, com capa e batina fechada e proibição do uso de insígnias, e a Reunião Geral de Grelados deliberou o cancelamento da Queima das Fitas".
Mais tarde e após a Assembleia Magna do dia 28 Maio, nos jardins da AAC, com a participação de cerca de 6000 estudantes, iniciam-se novas formas de luta: ao a "Greve aos Exames" (com uma adesão de 85%), a "Operação Balão" e a "Operação Flor".
O 17 de Abril de 69 foi o início de um processo de contestação estudantil em que "o objectivo era pôr em causa a Universidade para pôr em causa a sociedade", que viria a terminar com a "Revolução dos Cravos" cinco anos mais tarde no 25 de Abril de 1974, na medida em que conseguiu bloquear a acção do Governo e consciencializar social e politicamente os homens que fizeram o amanhã.


(Retirado e adaptado de http://www.aac.uc.pt/historia/17abril.php)

sexta-feira, abril 14, 2006

Hoje ... de Outros Tempos

"Regicídio"à americana, democracia à espanhola, autoritarismo em português e o NÃO salazarista ao fascismo!

Não me apetece falar de fórmulas americanas de democracia, para lembrar que neste dia de 1865 Abraham Lincoln foi mortalmente ferido. Apenas me apraz registar o seu poema preferido (retirado do google)



Oh, why should the spirit of mortal be proud?
Like a swift-fleeting meteor, a fast-flying cloud,
A flash of the lightning, a break of the wave,
He passes from life to his rest in the grave.

The leaves of the oak and the willow shall fade,
Be scattered around, and together be laid;
And the young and the old, the low and the high,
Shall molder to dust, and together shall lie.

The infant a mother attended and loved;
The mother that infant's affection who proved;
The husband, that mother and infant who blessed;
Each, all, are away to their dwelling of rest.

The maid on whose cheek, on whose brow,
in whose eye,Shone beauty and pleasure - her triumphs are by;
And the memory of those who loved her and praised,
Are alike from the minds of the living erased.

The hand of the king that the sceptre hath borne,
The brow of the priest that the mitre hath worn,
The eye of the sage, and the heart of the brave,
Are hidden and lost in the depths of the grave.

The peasant, whose lot was to sow and to reap,
The herdsman, who climbed with his goats up the steep,
The beggar, who wandered in search of his bread,
Have faded away like the grass that we tread.

The saint, who enjoyed the communion of Heaven,
The sinner, who dared to remain unforgiven,
The wise and the foolish, the guilty and just,
Have quietly mingled their bones in the dust.

So the multitude goes - like the flower or the weed
That withers away to let others succeed;
So the multitude comes - even those we behold,
To repeat every tale that has often been told.

For we are the same that our fathers have been;
We see the same sights that our fathers have seen;
We drink the same stream, we feel the same sun,
And run the same course that our fathers have run.

The thoughts we are thinking, our fathers would think;
From the death we are shrinking, our fathers would shrink;
To the life we are clinging, they also would cling -
But it speeds from us all like a bird on the wing.

They loved - but the story we cannot unfold;
They scorned - but the heart of the haughty is cold;
They grieved - but no wail from their slumber will come;
They joyed - but the tongue of their gladness is dumb.

They died - aye, they died - we things that are now,
That walk on the turf that lies over their brow,
And make in their dwellings a transient abode,
Meet the things that they met on their pilgrimage road.

Yea, hope and despondency, pleasure and pain,
Are mingled together in sunshine and rain;
And the smile and the tear, the song and the dirge,
Still follow each other, like surge upon surge.

'Tis the wink of an eye - 'tis the draught of a breath -
From the blossom of health to the paleness of death,
From the gilded saloon to the bier and the shroudOh,
why should the spirit of mortal be proud?
Nem pretendo fazer o que é da competência de "nuestros hermanos", que é a evocação da proclamação da 2ª República espanhola, pois em Portugal essa já não era novidade para o regime de então, mas uma hipotética ameaça que implicaria a simpatia da nossa ditadura militar pelo futuro caudilho espanhol.
Mas, neste dia de 1939 (ano em que só os inocentes acreditariam como ironia do destino o facto de Hitler e Estaline estabelecerem um pacto secreto), Salazar e o governo do Estado Novo recusam o convite, oficialmente apresentado pelo embaixador italiano em Lisboa, para Portugal aderir ao «Pacto Anti-Komintern», aliança de estados fascistas, já subscrita pela Alemanha, Itélia e Espanha, que teria por principal objectivo destruir (diplomática e militarmente) a «ameaça comunista» e a URSS.
Por outras palavras, será melhor traduzir este evento politológico em calão socialmente português, mas naturalmente mais do que outros, em semelhaqntes circunstâncias (à maneira do hoje-em-dia europês), o fariam, numa interpretação geo-política reveladora da desmitificação do provincianismo salazarista.
O Dr. António Oliveira traduziu, melhor que ninguém para a sua época, os interesses maiores para o Estado Novo, como hoje poucos o saberão interpretar. Soube esquivar-se, diz-se deste dia de 1939, a um compromisso historicamente decepcionante para o futuro da nossa identidade nacional. Daqui lhe faço a minha justiça por isso. Em minha opinião, devemos-lhe essa parcela do activo da nossa História.

quarta-feira, abril 12, 2006

Mire On Local

Continuando a reviver em saudade, como vejo também os ontens de hoje que, certamente, continuarão nos amanhãs! Ou como tudo começa e acaba na Capital do Reino!

Regresso a Barcelos com um "Mire On" sobre Lisboa! Não sou repórter. Não sou fotógrafo. Não sou mensageiro de informações que interessem a agências de qualquer espécie. Mas, como cidadão, sou observador, pelo menos das situações em que directa ou indirectamente vou participando.
E o mais velho dos meus dois mais novos já sabe o que significa ISCSP, essa Escola que alguém das paleonomenclaturas do situacionismo gerontocrático (ou da dinastia soarista) já apelidou de escola dos malditos, sem que ainda fosse atingida por esse sistema pré-bolonhês em que um estudante trabalhador, que começou um mestrado na vigência de uma lei, se vê impedido de o concluir por, financeiramente, não suportar os 1750 euros a que a actual lei obriga! E ainda antes de, talvez por ironia do destino, apenas ter de subir a rua para onde foi viver há quase quarenta anos, essa equidistância entre o velho e o novo ISCSP, para chegar às suas novas instalações!
Fiquei também a saber que há uma "lei Sócrates" relativa ao seguro automóvel, agora que, uma vez em Lisboa, aproveitava para me deslocar à sede da seguradora em questão e aí resolver um pequeno pormenor (não aceito que, para assumirem o risco de me segurarem "contra todos os riscos", me desvalorizem a viatura, com menos de dois anos a partir do novo), em quase 50% do seu valor - não admira que enriqueçam à custa do que nos andam a sacar!!!
Vi também, entre outras "vistas" que me trouxeram saudade, o local onde, à custa do programa de Veiga Simão (1970/ 71) para as actividades "circum escolares" do ensino secundário de então, pratiquei remo, com o Prof. Lopes Marques, na "Casa da Mocidade", edifício contíguo ao viaduto que sobrepassa a linha de combóio do Estoril, ali ao ladinho das "Docas" de Alcântara, onde, também noutros tempos, ali assistíamos à chegada e partida de transatlânticos de todas as proveniências, mesmo quando descíamos a "rampa" da marina para pôr o yolle de 8 na água (lembro-me do Vitor Pereira, do Raul Caldeira, do Baptista, entre outros do team). Agora, vejo um cais onde parece ninguém querer atracar, a não ser nas noites do "Budda" e nas "doquinhas", que já não têm o cheiro a "maresia que o Tejo traz e leva".
Agora, resta-me esperar pelas boas graças que as eventuais diligências poar aqui tomadas possam ter despertado, em regime de fobia crónica pelos poderes alternadamente instalados nos corredores da partidocracia, esperando a suprema intervenção das legítimas autoridades institucionais! Deus o queira, porque enfrento "Adamastores" que fazem com que, à semelhança do que enfrentaram os nossos antepassados pelos "mares nunca dantes navegados", seja difícil ser professor em meios sócio-urbanos ainda afastados da civilidade democrática, mal pecebendo que ser funcionário público não é ser empregadodos poderes locais instalados, mas servidor da República!!!

sexta-feira, abril 07, 2006

A saúde da saudade, em Lisboa!

Quando a saúde reclama, a necessidade chama com a chama viva da saudade!


Estou (de férias ?) em Lisboa! Venho tomar ares como quem vai a banhos de verão! Recarregar baterias precisa-se, em tempos em que os dispêndios energéticos já por si são dispendiosos, que é como dizer que, na entropia da vida, se gasta muito para reabastecr dos gastos que todos temos que ter para viver! É preciso ter muito cuidado, pois esses pseudoglutões da caixa negra deste sistema socialmente associal engolem-nos como leucócitos de um corpo que só a eles tem como corpos estranhos...!
Será que o Leviathan estará a comer os seus próprios filhos? Talvez não. Em todo o caso, cuidado, porque eles andam por aí, como autênticos anticorpos de um corpo social ao qual não pertencem, porque só dele se alimentam, transformados em autênticos parasitas do espaço vital que não lhes pertence! (Será isto algum Alliens revisitado ?)!

Provavelmente, nem os recursos disponibilizados por aquele tão falado "choque tecnocrático" (veja-se, por exemplo, as carapaças em metais de liga pesada que nos protejam das investidas da besta) de nada nos valerão, pois a besta já tratou de se domiciliar nos corredores dos bastidores dos palcos do politicamente correcto, ou único, enjeitando esta ditadura tipo soft, que só na "era do vazio" consegue ter lugar!

Por isso, prefiro ter de recordar esta velhinha mas sempre simpática Lisboa, de outros tempos populares, sem o saudosismo retrógrado mas que, sadiamente, nos remete para a saudade que qualquer vivente neste Portugal cosmopolita e sempre humanista necessita ser recordado, seja por razões individuais ou seja, com força ainda maior, por motivos que, em vez de serem como para muitos do alheio, se comprometem com a justa partilha fraterna sem hipocrisias que a desmesura das mentes andam frequentemente por aí a reclamar, como sendo virtudes ...




Por estes lados, há motivos de sobra para se comemorarem, existencialmente, esses valores sociais que não têm tempo, não se enquadram em qualquer regime politicório, não necessitam de choques tecnológicos nem de cartas de filiação neo-federalizantes, a precisarem mais de filhos do que estes de filiação ...
São estes restos de filhos sem família que me chamam mais a atenção e me despertam mais profundamente a saudade de riviver a fraternidade de outros tempos, mesmo em regime de autoritário provincianismo nunca assumido pelos que, em jeito de urbanidade rural, sempre podem dizer, hoje, que são tempos que ainda não lá vão porque esses ainda cá estão para marcar presença neste espaço social que já não sabe onde começa a escravidão e acaba a cidadania ... pior que isto, talvez não tenha havido ... há imagens de sobra que nos fazem reviver com saudade ...

É desta colectividade de cultura recreio que componho esta publicista, dando conta do que por aqui também disse há já uns bons anos, mesmo quando presidi à Mesa da Assembleia Geral, em jeito de exortação de valores sociais que, na altura (pós PREC) estariam já a ser associativisticamente ameaçados... "a sociedade [SFRA] é o espelho da sociedade a que pertencemos"...

Hoje, com os "tapa tudo", "encobres" (como é exemplo à entrada desta noutros tempos muito respeitada colectividade, não só pelo espaço de convívio social que proporcionava, como pelos títulos desportivos, como foi o caso do Ténis de Mesa a nível nacional, e as diversas manifestações de âmbito cultural e sócio-político que a marcaram ao longo dos anos) e os "quem tem dinheiro vai sempre à frente", entre outras das prerrogativas neo-capitaleiras deste regime pró-totalitarista de um pensamento subtilmente único, já não há como expressar certas situações da realidade social que, observadas, a todos consternará. Mas é por isso, também, que o publicista existe e se quer fazer:

Agora, que também da janela do meu quarto, mesmo ao lado da SFRA, mais um pedaço dos meus horizontes sobre o Tejo levaram, não quero dizer mais nada, porque pouco mais haverá a dizer.

Há, certamente, muito mais a fazer, não só por estas sociedades específicas - as colectividades de cultura e recreio, sobretudo as que, historicamente, merecem nunca ser esquecidas - mas pela sociedade que todos queremos ser!

terça-feira, abril 04, 2006

Letras do Pensamento

O publicista Sampaio Bruno, ou como o espírito inconformista deste vulto da nossa praça intelectual tem razão para ser, continuamente, evocado!

Também eu segui os passos deste grande vulto do pensamento português, tão pouco conhecido como, notoriamente, muitos outros nomes de relêvo da nossa cultura filosófica. Por isso, nesta primeira aproximação que faço em sua memória, pois este título do Blogue, já o disse, foi nele inspirado, apenas me apraz republicar um artigo que assinei num jornal local deste burgo condalense. Tem isso a ver com a presente situação profissional que atravesso, e as implicações pseudo-tácitas que, também, atravessam as nossas instituições, desde há já muitos anos. Onde começou, não sei, "mas que elas andam por aí, lá isso andam ...", disfarçadas ou não em filhas da virtude que nunca conheceram.

«1. Chamaram ...e o astrólogo do Reino ainda não veio! Mas já “fala”! O que o astrólogo do Reino descobriu?! É fantástico, o que o poder dos magos alcança (?)! Qualquer dia, também os políticos mais susceptíveis a estas andanças exotéricas, que delas (consta por aí) são vistos e achados frequentadores, chamarão pelo dito para bafejar o défice orçamental com aquela pitadinha de mágica, que lhes falta para exorcisar as marcas que, insistentemente, nos atormentam a contabilidade pública...! Mesmo assim, não sei se haverá magia que afronte a vil maleita, tão forte deve ter sido o ritual satânico que nos sentenciou a penar em tão angustioso sacrifício ...!

Mas, confesso, este poder transcendente não é o do meu (quase assumido alter ego) douto amigo JAM, que tanto tenho evocado! Apesar de toda a força anímica que nos move, e que dele brota como água de fonte limpa! O astrólogo do Reino, por quem chamamos há umas semanas atrás para parar a seca em que mergulhou a nossa democracia, é algo parecido com a figura cibernética da “caixa negra”. Com aquele poder de retroacção dos sistemas que, depois de descodificadas as anomalias do seu funcionamento, e por efeito da doseada homeostasia (capacidade de os sistemas se corrigirem automaticamente), consegue descobrir o que desvia o corpo para o “vício”. Sem o compromisso de prescrever o tratamento a seguir, reservado que está, quase em exclusividade, à casta teleológica superior (com alguns doutorados, talvez também, em universidades complutenses...).
“De qualquer maneira, sinto que andam por aí inúmeros seres de intolerância ... , desde jacobinos não reciclados, militantemente anti-religião, ... que continuam a fabricar aquelas cumplicidades que lhes permitiram ganhar a vida como pretensos donos daquilo que formalizam como inteligência, mas que assumem a intolerância típica dos inquisidores e sargentos da censura... que apenas toleram que sejam eles próprios os fabricantes da intolerância, da difamação e do insulto. E ai de quem ousar pisar-lhes as calosidades opinativas, rejeitando seguir-lhes os ditames que emitem sobre a partidocracia que os protege e prebenda, ou ofender-lhes os meandros apoiantes do respectivo benefício situacionista.”
[1]

2. Também digo, pela pena de alguém que, finalmente, leio com projecção num dos jornais diários nacionais, que este Governo não reflecte, quase na invisibilidade, qualquer esperança que seja luz, tão imerso que estará na germinação de mais um pseudo plano salvífico, urdindo a sacratura da palavra que convence, apenas, a indigência dos hipócritas.
“Vós sois os eternos críticos e oficiosos biografadores daqueles que, em troca, vos elogiam, irmanados que estais no sindicato das citações mútuas, nesses doces enlevos que vos fizeram encartados homens de cultura ... como cães de fila e vozes de dono, nunca passareis de engraxadores do ditirambo, visando subir mais alto, aos etéreos vértices donde, finalmente, podereis clamar o "cheguei, vi e venci" ...
Pois, continuai a falar em doutrinas como justificação para o insulto e a mentira, como outros disseram pátria e humanidade, para disfarçarem crimes de assassinato físico e moral. Eu não me calarei, enquanto a voz puder ser comunicada aos outros.”
[2]
Doença social em franca expansão para-económica, dado já dever ser o principal recurso para repasto dos necrófagos elencados na casta nomenclatura neuro-democrática, faz com que se governe “por periscópio” (talvez a fazer inveja à enclausurocracia salazarista) ... faz-nos lembrar uma espécie de soldados da paz (do género não bombeiro) que, empenhados na luta sem tréguas (?) do combate ao devorismo flamejeiro, tão distantes que estão dos olhares, insinuações, dúvidas e inquirições, apelos e atropelos ‘bem intencionados’, ... dificilmente escapam à cartesiana dúvida da sua existência! A não ser que sigamos o mesmo cartesiano logicismo de que “eles decretam, logo existem”. Nem que a tragédia dos episódios do quotidiano plebeu os obrigue ao disfarce, ou que isso custe ou ponha em risco a existência alheia!»

[1] JAM, www.tempoquepassa.blogspot.com.
[2] Idem.

domingo, abril 02, 2006

Letras do Pensamento

Quando estas coisas assim me atingem … vejo algo acontecer à educação em Portugal!

Que hoje, para começar, não poderia deixar de ser, também, uma evocação ao “Publicista” Sampaio Bruno, pelos seus contributos que, com os de outros, traçaram um pensamento caracteristicamente português sobre a educação, dentro daquilo a que poderíamos chamar filosofia da educação, no que tem sido “ a preocupação portuguesa pela formação e reformação do homem”. Primeira curiosidade: o facto de, no ano de 1906, Bruno publicar Os Modernos Publicistas Portugueses (talvez a obra “onde mais directa e desenvolvidamente ele se debruça sobre a educação”) e, nesse ano, Raul Brandão publicar Os Pobres, essa obra do seu existencialismo que retratava “a imensa legião de pobres do mundo moderno … resultado da dissolução dos valores emergentes do amor cristão, mediante o império avassalador da cobiça, do dinheiro, do lucro, da acumulação do capital, gerando o desprezo pela dignidade humana e libertando ódios indizíveis”. Assim exprimia “a consciência dramática da miséria aviltante que transforma o homem num farrapo”.


“Estamos a precisar de escrever uma História da Filosofia da Educação em Portugal … todo o país que o mereça ser tem de possuir uma visão filosófica da educação. E essa visão há-de exprimir a história desse povo, que é única.” [1].



É com esta introdução referenciada que me exorto a fazer eco do que, recentemente, fez de mim mais uma vítima do sistema em que, quase inevitavelmente, vivemos! Agora já não me restam quaisquer dúvidas: de entre os contra-poderes da administração pública portuguesa, aquele que mais estruturantemente condiciona e, potencialmente, vicia a reprodução social é, afirmativamente, o do sistema de ensino!

Mas, sobre isso, ainda não me é, jurídico-processualmente, permitido falar! E não o devo, ainda, fazer. Mas há casos que, moral e físicamente, nos transportam para a dimensão pseudo-anárquica do nosso sistema de ensino, onde proliferam processos neo-kafkianos de linchamento profissional, com lobbies que serão, inequivocamente, o maior absurdo de um estado de direito, que se quer democrático, não somente nas declarações solenes e formais, mas nos actos do dia-a-dia do trabalho, sobretudo de quem também anda a tentar construir o futuro! Sem cálices de cicuta!

É perfeitamente frustante, humana e profissionalmente falando, o ataque cerrado mas silencioso dos que, do alto do pedestal onde se sentem atingidos, não se importam de tratar dos seus próprios interesses pessoais em detrimento da implementação das soluções que, quotidianamente, a todos se nos deparam como as mais exequíveis para as situações/problemas que enfrentramos!

Haja Deus!!!

Compreendo, agora, que o lema benfiquista "et pluribus unum" tem muito mais propriedade que a velha máxima coloquial de que "quem não é benfiquista não é bom chefe de família", pois o lema também serve para os caciquismos subservientistas de quem, no ensino, não se identifica com isso, ou seja, "quem não é de esquerda [tipo jacobina] não é bom professor. Para estes, continuo a preferir o meu velhinho de Belém, o meu querido e simpático "Os Belenenses", nem que não fosse, somente, pela Cruz que a todos nós diz respeito (até a cruz da Federação Portuguesa de Futebol o imita)!

Libertemos, também, esta fúria azul, mesmo que a águia nos tenha derrotado este fim de semana!

[1] História do Pensamento Filosófico Português, ob. cit., Vol. V, Tomo 1, pág. 392.

sexta-feira, março 31, 2006

10 Livros Que Mudaram O Mundo

10 LIVROS QUE MUDARAM O MUNDO
Quando me propus lançar esta rúbrica, não me imaginei a inaugurá-la com a recomendação de uma antologia de textos críticos, baseados noutras tantas obras famosas sobre que versam. É um livro com uma estrutura, pelo menos para os meus horizontes bibliográficos, bastante original, mas não menos rico nos conteúdos. Acima de tudo, cada um dos respectivos temas está estruturado de forma a podermos entendê-los de acordo com os seguintes campos analíticos:


  1. Nota biográfica sobre o autor

  2. Contexto histórico da obra

  3. Impacto da obra na sociedade

  4. Pistas de exploração da obra

  5. Propostas de realização de actividades

  6. Bibliografia

  7. Websites

É com esta simples caracterização que posso apresentar esta bela obra, os “10 Livros que mudaram o mundo”, das edições Quasi. Nela poderemos ver, então, o interesse que mereceu o impacto que obras como O Príncipe, de N. Maquiavel, A Bíblia e o Corão, O Erro de Descartes de A. Damásio, A República de Platão, A Interpretação dos Sonhos de S. Freud, etc., tiveram na sociedade, tanto do seu tempo como , ainda, nos nossos dias.





Que esta leitura sirva, para muitos, de guia para o que se propôs: o entendimento de como estas leituras puderam, de facto, ter mudado algo no Mundo.

quarta-feira, março 29, 2006

Hoje ... de Outros Tempos

▪ Criação, neste dia de 1830, da primeira Escola de Veterinária Portuguesa, em Lisboa, por diploma de D. Miguel. Em 1853 vem a incorporar-se no Instituto Agrícola de Lisboa. Hoje faz parte dos Institutos Superiores que constituem a Universidade Técnica de Lisboa, de cujo espírito eu também tenho memória, porque tive a fortuna de por lá ter passado, nessa acima de tudo antropoescola que é o ISCSP, essa Escola que se faz representar pela armilar (deixada por trás da porta de entrada do bar do Palácio de Burnay …)


▪ Sai publicado, neste dia de 1911, o decreto que, revogando o de 1901, reorganiza os serviços de instrução primária. Cria oficialmente o ensino infantil para os dois sexos, escolas infantis em cada um dos bairros de Lisboa e Porto, em todas as capitais de distrito e nas sedes dos principais concelhos, atribuindo-lhes professoras diplomadas pelas escolas normais. Apesar da legislação que foi sendo publcada, o ensino oficial infantil tardou a aparecer, por falta de verbas.
Quanto ao ensino primário, este decreto declarava-o laico e descentralizado. Em termos organizativos, o ensino primário era distribuído por três graus: o elementar, obrigatório com duração de três anos; o complementar, com duração de dois anos; o superior, com duração de três anos. Destes, só funcionou regularmente o ensino elementar. Este decreto continha, ainda, um conjunto de medidas tendentes à protecção e dignificação do professor primário, como é o caso da concessão de dispensa de serviço (dois meses ao todo), sem perda de vencimento, às professoras durante o último período de gravidez e em seguida ao parto, inspecção sanitária escolar, aumento de vencimento, etc.



▪ Neste dia de 1985 também é inaugurada a Mesquita de Lisboa. A comunidade muçulmana, radicada em Portugal, contaria com cerca de 15 000 membros, sem que houvesse notícia de algum pertencer a organizações terroristas, nem Georges Bush tinha, ainda, os planos estratégicos para ter invadido o Iraque, corolário da 1ª fase de uma neo-feo-dominação imperial.
(Extraído e adaptado da “História de Portugal em Datas, Círculo de Leitores).

Hoje ... de Outros Tempos

Vale a Pena Recordar

▪ Sai publicado, neste dia de 1911, o decreto que, revogando o de 1901, reorganiza os serviços de instrução primária. Cria oficialmente o ensino infantil para os dois sexos, escolas infantis em cada um dos bairros de Lisboa e Porto, em todas as capitais de distrito e nas sedes dos principais concelhos, atribuindo-lhes professoras diplomadas pelas escolas normais. Apesar da legislação que foi sendo publicada, o ensino oficial infantil tardou a aparecer, por falta de verbas.

Quanto ao ensino primário, este decreto declarava-o laico e descentralizado. Em termos organizativos, o ensino primário era distribuído por três graus: o elementar, obrigatório com duração de três anos; o complementar, com duração de dois anos; o superior, com duração de três anos. Destes, só funcionou regularmente o ensino elementar.

Este decreto continha, ainda, um conjunto de medidas tendentes à protecção e dignificação do professor primário, como é o caso da concessão de dispensa de serviço (dois meses ao todo), sem perda de vencimento, às professoras durante o último período de gravidez e em seguida ao parto, inspecção sanitária escolar, aumento de vencimento, etc.

domingo, março 26, 2006

Gharb al-Ândaluz

E como cheguei a este ponto estético? Entre duas vontades expressivas: a da forma e a do conteúdo, sendo que o segundo terá de caber na primeira, cuja construção certamente teve de precedê-lo.





Entretanto, vou lendo alguns excertos da História do Pensamento Filosófico Português, para me inspirar naquilo que, seguramente, é a descrição histórica mais cabal do nosso substrato cultural:

Um exilado na terra do Magrebe
Tem o coração dividido
Entre duas afeições:
Salé tomou uma parte
Évora a outra.
[1]




E, continuando a evocar o fundo da alma com identidade pré-nacional, remeto-nos para o universalismo aristotélico de Ibn al-Sid, no poema:

Ó homem tu és um meio entre dois extremos opostos
Foste composto ao modo de uma forma num hilé
Se resistes à paixão, elevas-te às alturas
Se te submetes a ela desces ao mais baixo.



Oh, nosso belo Gharb al-Ândaluz!


[1] Isa Ibn al-Wakil.

quarta-feira, março 22, 2006

Entre mudas e não mudas... petiscando

Vamos reconstruindo a estética deste blogue, com as ajudas do vento que passa, ou a disposição que se ganha ao mudar de lugar...


Entretanto, foi aqui que se deran algumas das alterações ... ao sabor da boa camaradagem portugalória. Valeu a pena, pois neste local de Barcelos há um pouco do cosmopolitismo da nossa capital ... sem bloquismos, nem comunismos, nem pseudo-democratismos! Apenas o espaço em que se pode divagar, pensando, dialogando, tertuliando ... a escolha é sempre bem temperada com um cadinho p'ra tapar o saco...
E cá vamos nós, continuando a tentar fazer sempre melhor ... Este publicista bem o merce!

terça-feira, março 21, 2006

Chegando a uma conclusão

Não conheci, nem pessoal, gnoseológica ou literariamente, Fernando Gil, mas ouvi notícias que me deixam perceber que Portugal tem menos um vulto das ideias com substracto, quer contextualizadas no universo filosófico, quer como pedagogo universitário.
Na hora em que alguns, como eu, podem , pelo menos em espírito, comungar deste pesar da perda que o país sofre, vou reconstruindo a tal estética desta página, pois aproveito o tempo que nunca é muito.
Entre o escritório de casa e o que "ambulatoriamente" me é possível construir, creio já ter chegado a uma conclusão - apenas poderão vir a ser melhorados aspectos de muito pequeno pormenor, sobretudo quanto à funcionalidade das janelas do 'sidebar'.
Entretanto, até breve, e espero propostas de quem, identificado com o propósito desta página de blogue, se queira inscrever como membro da equipa de colaboradores.

domingo, março 19, 2006

Esperando que tenha valido a pena alterar o aspecto


Meti-me nas linhas de programação dos templates destes blogues, spot.com, que é como quem diz, nas linhas html e/ ou css, do qual eu sou um autêntico ignorante, ... mas meti-me nelas e vi alguma da lógica com que se constroem os elementos que constituem estas páginas. Ainda não consigo fazer muito do que gostaria, mas já consegui evitar a frustração de andar a querer fazer destas coisas e não conseguir.
Confesso o meu afecto pelas cores da Escola e respectiva Universidade, que deu mais ser aos meus horizontes, que ainda querem ser mais enquanto houver vontade para tal. Por isso a "cabeça" deste blogue ficou com essas cores, num fundo cinza de alma enublada, mas onde se poderá ler e escrever, claramente (corpo de texto principal), 'preto no branco'. A margem fica reservada para a massa cinzenta navegante.
Não presisei de nenhum choque tecnológico, nem sequer eléctrico, apesar de na minha última maratona desta construção bloguítica(durante esta madrugada) esta terra, pseudo-patagónica, de gente pacata e serena, ter visto a escuridão durante a parte restante da noite, sem electricidade, o que causou ainda o acionamento de n alarmes cujos proprietários se esqueceram que podem mesmo ser assaltados, sem sirenes nem alarmes, na tranquilidade aparente das suas existências, como se de donos de coisa nenhuma se tratasse, tal é a distância que medeia entre quem tem, quem pode, quem sabe e todos os outros «que aguentem lá com a sirene três ou quatro horas de descanso semanal, que nós ainda temos mais umas horas para estar a curtir a 'night'». "Não há pachorra! Isto só visto" (ver em Os Incríveis).
Assim, espero estar em condições de poder apresentar algumas peças de obra crítica que valham a pena o esforço que dispende quem gosta de comunicar. E espero ter o contributo de mais alguns que queiram fazer-me companhia, neste empreendimento cívico e académico.

quinta-feira, março 16, 2006


Hoje ... de Outros Tempos

Hoje ... vale a pena recordar ("reeditado de Novo Arco Íris"):

Golpes diplomáticos em jeito de iberíades (1), amores que levam à perdição (2), o nosso “tecido empresarial” eternamente pequenês (3), com ou sem Ministérios do trabalho (4), e como uma grande senhora das letras da nossa praça intelectual também hoje preocuparia o PGR (5)
Que,
(1) Neste dia do mês, no ano de 1737, sob a mediação da Inglaterra e da Holanda, Portugal enceta as «Pazes» com a Espanha, através da Convenção dedicada ao incidente com o embaixador português em Madrid, ocorrido dois anos antes: um preso espanhol refugia-se na legação portuguesa em Madrid, o que levou à invasão da casa do embaixador e à prisão de alguns dos criados. Lisboa paga da mesma moeda, tendo como represália invadido a residência do embaixador espanhol e prendido alguns dos seus servidores.Se a crise já era latente, o incidente desencadeou o corte de relações com a Espanha e a ameaça de guerra, que se torna eminente.
(2) Nasce em Lisboa, em 1825, Camilo Castelo Branco. Para o evocar, gostaria de não me reter apenas naquele episódio da sua vida particular com Ana Plácido, mas da importância literária e filosófica da sua obra. Assim, limito.me, humildemente, a reproduzir a nota que segue (retirada do Google):

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco foi um dos escritores mais profícuos do segundo Romantismo português. Poeta, panfletário, polemista, prefaciador, crítico, tradutor, romancista, dramaturgo, bibliografo, historiador, cultor de todos os géneros, o conjunto da sua obra literária é o mais vasto e diversificado de todo o século dezanove. No romance, género que mais versou (publicou cinquenta e quatro romances), Camilo escreveu na fronteira entre o idealismo romântico (mas já, de certo modo, sob a influência da corrente realista) e a tentativa de alcançar a estética da geração naturalista, primeiro na forma de pastiche estilístico, mais tarde como adesão (embora reactiva) ao movimento de que, no íntimo, desdenhava.Nascido em Lisboa, cedo ficou órfão e passou a viver em Vila Real de Trás-os-Montes com a irmã, mais velha, e uma tia paterna. Depois do casamento da irmã, vai viver com ela para Vilarinho da Samardã onde o irmão do cunhado, o padre António José de Azevedo, o iniciou nos primeiros estudos. A vida aldeã e as recordações de infância perpassam pelas suas narrativas, todas elas, de uma forma ou outra, dotadas de um cunho autobiográfico ou do relato ficcionado de incidentes a que o escritor assistiu ou lhe foram narrados pelos próprios protagonistas.Aos quinze anos casa pela primeira vez, com Joaquina Pereira de França, com quem teve uma filha, logo abandonando as duas, que viriam a morrer pouco tempo depois. Em 1843 matriculou-se na Escola Médica do Porto mas não chegou a concluir os estudos de medicina. Tentou em 1846 frequentar Direito em Coimbra, projecto também gorado por não ter sido admitido na Universidade: desde o ano anterior, Camilo começara a publicar poemas Os Pundunores Desagravados, O Juízo Final e O Sonho do Inferno. De regresso a Vila Real, conhece Patrícia Emília de Barros, com quem foge. Acusado de rapto e desvio de dinheiro, Camilo e Patrícia, que viviam maritalmente, foram presos na Cadeia da Relação do Porto. Desta ligação reultou o nascimento de uma filha, Bernardina Amélia, em 1848.Ainda em 1846, e na sequência da revolta da Maria da Fonte, Camilo terá combatido ao lado da guerrilha miguelista o que, segundo alguns biógrafos, lhe deveu a nomeação para amanuense do Governo Civil em Vila Real, mas fugiu da cidade depois de ter publicado, no jornal portuense O Nacional, duas cartas contra o Governador Civil. Foi viver sozinho para o Porto onde começou a colaborar na imprensa e se revelou polígrafo de escrita rápida, com a publicação da narrativa Maria! Não me mates que sou tua Mãe!, de dois volumes de miscelâneas, de um poema e de uma peça teatral. Em 1850 estava de regresso a Lisboa, onde encetou a sua carreira de polemista com o panfleto O Clero e o Sr. Alexandre Herculano, defendendo o amigo escritor. Neste ano, em que a escrita do romance Anátema e a colaboração em vários jornais – mas também a fundação de alguns outros – marcam a sua dedicação total ao ofício da escrita, conheceu Ana Augusta Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves, mulher fatal, cujo amor impossível quase o levou a abraçar o sacerdócio, tendo solicitado a imposição de Ordens Menores, que lhe foram recusadas devido à vida aventurosa que até então levara. Continua a escrever vertiginosamente, ao mesmo tempo que mantém uma relação adulterina com Ana Plácido. A ligação dos dois foi muito censurada pela sociedade portuense, visto Ana ser casada com um homem respeitado na cidade e ser cunhada de Bernardo Ferreira, filho da famosa Ferreirinha da Régua. Os escritos de Camilo passaram a ser recusados pelos jornais do Porto, deixando-o sem meios de subsistência. Viu-se obrigado a concorrer em 1858 ao cargo de segundo bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto, não conseguindo ser admitido, mesmo contando com a protecção de Alexandre Herculano, que nesse mesmo ano o propôs para sócio correspondente da Academia Real das Ciências, no intuito de reabilitar o nome do amigo.Entretanto, e depois de Ana Plácido ter dado à luz um filho, presumivelmente de Camilo, Pinheiro Alves moveu aos dois amantes um processo de adultério, tendo ambos sido presos na Cadeia da Relação do Porto em 1860. Era a segunda estada de Camilo naquela Prisão: desta vez, já escritor consagrado, recebe visitas do jovem rei D. Pedro V, traduz várias obras de autores estrangeiros e compõe diversos dos seus mais conhecidos romances – Amor de Perdição, Romance dum Homem Rico, Doze Casamentos Felizes. As suas recordações da Relação ficaram fixadas em Memórias do Cárcere, livro no qual dá conta das muitas figuras que ali conheceu, nomeadamente o célebre José do Telhado.Depois da absolvição de Camilo e Ana Plácido, do nascimento do filho Jorge e da morte de Pinheiro Alves – que deixou à mulher uma herança em dinheiro e diversos imóveis – os dois mudam-se para a Quinta de São Miguel de Ceide em 1864, onde lhes nasce o terceiro filho, Nuno. Camilo continua a escrever vertiginosamente – chega a publicar seis romances por ano, para além da colaboração jornalística – e a doença oftálmica, que se tinha declarado anos antes vai piorando.As manifestações de loucura do filho Jorge e as difíceis condições de subsistência obrigam-no, em 1871, a fazer um primeiro leilão da sua biblioteca. Sucedem-se publicações, sobretudo de traduções adaptadas, sem nome do autor original. Em 1879 volta à polémica, desta vez resultante do Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros, antologia cujas críticas lhe valerão resposta no volume Os críticos do Cancioneiro Alegre. Nesse mesmo ano publica Eusébio Macário que, com A Corja, do ano seguinte e O senhor Ministro, publicado em Narcóticos, constituem uma série de imitações “facetas” do estilo naturalista, então entrado em voga. Num último romance, Vulcões de Lama, de 1886, ridiculariza a escola realista, pondo em cena diversos tipos da sociedade portuguesa da época.Em 1888, depois de vários empenhos, é feito Visconde de Correia Botelho, conseguindo no ano seguinte uma pensão vitalícia para o filho Jorge, cuja loucura era irreversível. Cego, e desenganado dos muitos médicos que o tentaram tratar, suicidou-se em S. Miguel de Ceide no dia 1 de Junho de 1890.
(3) Como me deixa preocupado, este Decreto de 1893, que regulamenta o trabalho feminino e dos menores. A idade legal era fixada em 16 anos para os rapazes e 21 anos para as raparigas. Previa, ainda, a proibição de trabalho durante as quatro semanas posteriores ao parto, assim como a obrigação, para as fábricas que empregassem mais de 50 mulheres, de instalar uma creche a menos de 300 metros da fábrica. Previa-se ainda a possibilidade de as mães se ausentarem do trabalho a fim de amamentarem os filhos.Apesar de muita desta legislação não ter passado de letra morta, mesmo com a fiscalização do seu cumprimento prevista, não só importa como nota histórica de um quadro legal de referência à maior força reivindicativa que, em tempo monárquico, ficou capital do operariado já em crise, como deve fazer inveja aos dias que correm … (lembro-me do noticiado mas já esquecido episódio da srª que, em pleno Parque das Nações guterrista, foi impedida de “dar de mamar” ao seu bebé, por ter sido considerado uma falta de pudor …). Mas, acima de tudo, lembro-me do que nas minhas aulas já tenho dito aos meus alunos, falando de desenvolvimento sócio-humano, quando olhamos para a generalidade das empresas portuguesas e do preceito que, neste então de 1893, tanta inveja deve provocar às nossas mamãs de hoje …. Será que agora já não têm ‘las ganas’ de outrora? Nuestras mujeres estan volvendo locas ó qué pasará com sus ombres?, vuelven marchitables, por supuesto? Não será este mais um dos nossos indicadores de subdesenvolvimento? Cogitando … ma non tropo!
(4) Criação do Ministério do trabalho (e Previdência Social), que alargou os serviços de assistência prestados pelo Estado. Foram criados orgãos próprios destinados a uma prestação mais vasta de serviços, como é o caso dos socorros mútuos, seguros, caixas de pensão e económicas, cooperativas, etc. (ver Nota Histórica no Google, com toda a Génese e Desenvolvimento do Ministério - 1916-2004)
(5) Também para Natália Correia quero deixar falar as notas já historiografadas, porque o fazem muito melhor que eu. Mas não posso, também aqui, deixar passar o facto de, para este vulto do nosso património cultural, terem sido publicamente evocados episódios da vida privada que, certamente para a ética socialmente perfilada, não chegarão para abonar toda a verdade. Lembro-me de uma célebre entrevista à revista “K”, de 1992, em que Luís Pacheco então dizia que “A Natália Correia é uma devassa, vocês ponham isso que ela fica toda zangada, mas ela é uma devassa. Ela meteu-se com uma mulher minha”, antes do entrevistador lhe perguntar (K) “Como explica que em França os surrealistas fossem praticamente homófobos, e o grupo surrealista português tenha uma forte presença homossexual?” Ao que respondeu: (LP) “Não, aqui não havia tantos como isso… ficaram espantados como é que eu de repente aparecia aqui atrás de um magala. Eu era considerado um pai de família, tinha filhos, tinha casa.” (K) “Mas isso é a tradição homossexual portuguesa.” (LP) Sim, isso é para tapar. Casam-se. É o caso da Natália Correia, já vai no 4º marido para tapar, ela não gosta de homens (eu sei lá do que ela gosta ou do que não gosta!). Não, esses casamentos de conveniência para tapar os vícios ocultos, acho que há em todo o lado.” (…)Que quererá, hoje, tal entrevista significar? Que nos resignemos à realidade que não queremos reconhecer? Mais vale ficarmo-nos, por isso, com outras notas, dignas da publicitação que a obra desta autora também merece, sobretudo quando se evoca o dia em que, em 1993, nos deixou.
NATÁLIA CORREIA


[Fajã de Baixo (São Miguel, Açores), 1923 - Lisboa, 1993
Nascida na Fajã de Baixo (Ilha de São Miguel, Açores) em 13 de Setembro de 1923, Natália de Oliveira Correia – que se estabeleceu em Lisboa com a mãe e a irmã aos onze anos, quando o pai emigrou para o Brasil – foi uma das personalidades mais destacadas da literatura portuguesa das últimas décadas. Notabilizada através de diversas vertentes do ofício da escrita (foi poeta, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora), tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, em programas como «Mátria», no qual exprimia uma forma especial de feminismo – afastado do conceito tradicional do movimento e que mais correctamente se poderia intitular «feminilidade portuguesa» – o matricismo, identificador da mulher como matriz primordial e arquétipo da liberdade erótica e passional; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria.Natália dava largas ao seu invulgar talento oratório – a que não era estranha a coragem combativa que a moveu em vários momentos de intervenção política pública – nas suas polémicas intervenções parlamentares enquanto deputada (1980-1991) e nas tertúlias artísticas: primeiro em sua casa, mais tarde no bar Botequim, que fundou em 1971 com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, e onde durante os anos setenta e oitenta do século XX se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa – foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), Cruzeiro Seixas, David Mourão-Ferreira (“a irmã que nunca tive”), Mário Soares, Urbano Tavares Rodrigues, José-Augusto França (“a mais linda mulher de Lisboa”), Manuel de Lima, Luiz Pacheco (“esta hierofântide do século XX”), Mário Cesariny, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, Fernanda de Castro... – e muitos escritores estrangeiros – Henry Miller, Henri Michaux, Graham Green, Ionesco... Em diversas ocasiões tomou parte activa nos movimentos de oposição anti-fascista, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do General Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Durante a ditatura foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de uma Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nos Estúdios Cor, de que foi directora literária; foi também responsável pela coordenação da Editora Arcádia.Na linha de Teixeira de Pascoaes, Natália Correia defendia «a poesia como profecia» e «o poeta como profeta». Mais do que saudosista, a sua forte ligação às ilhas atlânticas (sobretudo à sua S. Miguel natal) e ao seu maior poeta, Antero de Quental, era de permanente paixão, tendo mesmo, depois da revolução de 25 de Abril de 1974, apoiado a Frente de Libertação Açoriana e escrito a letra para o hino dos Açores. Após a Revolução foi, ainda, directora das publicações Século-Hoje e Vida Mundial, e consultora para os Assuntos Culturais Internos da Secretaria de Estado da Cultura (1977), tutelada por David Mourão-Ferreira. Em 1992, liderou a criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura, acompanhada, entre outros, por José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e Manuel da Fonseca.O seu primeiro romance, uma narrativa infantil, Grandes Aventuras de um Pequeno Herói, surgiu em 1946. Nesse mesmo ano começa a escrever poesia. Pela vida fora publicou numerosos livros, datando o último do ano da sua morte, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, a reunião da sua poesia completa, que inclui todos os livros publicados e muitos poemas inéditos.Natália Correia, cuja escrita alguns críticos classificaram como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica (entre todas, a classificação preferida pela própria), foi na verdade uma escritora cuja originalidade e versatilidade não podem ser compartimentadas em qualquer escola literária. Estudiosa do Cancioneiro Medieval, e adaptadora para português moderno dos Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, organizou uma Antologia da Poesia do Período Barroco; em ambos os períodos literários buscou inspiração, mas não deixou de introduzir nos poemas da sua lavra um singular talento e uma peculiar expressão poética, a que não é alheia a hábil utilização de figuras de estilo como a metáfora, os paralelismos e as repetições. Por outro lado, a ironia e o sarcasmo, as associações fónicas e imagéticas, aproximam-na do surrealismo, sem que a sua poesia deixe de ter um toque de originalidade que não pode sofrer comparação com outras expressões do movimento surrealista português. Natália Correia foi um desses seres, frequentes no nosso país, que se adiantam ao tempo em que vivem para anunciar, antecipar, novas expressões culturais. Reencontrou os grandes mitos portugueses, que nos seus trabalhos se transformaram em arquétipos recorrentes: os mitos do Andrógino (o ser completo, uno e plural), do Desejado (que simboliza a resistência, a esperança em tempos melhores), a história de Pedro e Inês (símbolos da paixão, da volúpia na morte), o espaço sagrado e iniciático da Ilha, com os seus enigmas por resolver. Toda a sua criatividade lhes estava dirigida: reformulando-os, dedicou obras próprias a cada um desses mitos, símbolos e arquétipos, conferindo-lhes uma dimensão de futuro, de liberdade, de natalidade, de portugalidade sentida. A esta faceta não deve ser alheia a sua experiência vivencial nos Estados Unidos da América, enquanto esteve casada em segundas núpcias com o norte americano William Creighton Hyler. Ali escreveu o livro de crónicas Descobri que era Europeia.Em 1962, Natália Correia conhece um jovem poeta e cineasta que se apaixona por ela, Dórdio Guimarães, com quem estabelece uma longa amizade. Viúva do terceiro marido, Alfredo Machado, casa-se com Dórdio em Março de 1990. Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago. Faleceu em Lisboa, em 16 de Março de 1993. O seu espólio literário, constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, foi arrolado sob orientação da sua grande amiga Helena Roseta e está a ser tratado por uma equipa de especialistas da Biblioteca Nacional de Lisboa para depois ser partilhado entre a Biblioteca Nacional e o Governo Regional dos Açores, conforme as disposições testamentárias de Natália Correia e de Dórdio Guimarães. Os volumes constantes das suas bibliotecas ficaram integralmente na posse do Governo Regional dos Açores, onde estão a ser catalogados pela Biblioteca de Ponta Delgada.

quarta-feira, março 15, 2006

Cogitadelas 15

Contemplando, ... uma noite com a Lua cheia

Que vai alta e plena de luz, sem perder pitadada do que a face da Terra para si não oculta não esconde, a não ser nos meandros que os acidentes, naturais e/ ou humanos desenham nos quotidianos por que todos vamos navegando, passando sem velas de vento que não se sente, e por isso não se vai como deveria ir, ou vai como não devia ir, como não devia ser, quando e onde não devia estar, e ninguém deveria ser obrigado a tal quando já é alguém que passou onde devia, quando é o que tem de ser, à luz seja de quem for ...!
Acabadinha de tirar
Oh lua que, tão alta vais, será que ninguém te ouve quando te vê, para ti olha e não te sente? Claro, há sempre alguém que te vê, te cheira e contempla, ouvindo a música que passa no teu lento passeio à luz das estrelas, que parecem invejar-te tão clara intimidade, no límpido que é esse lampejo prateante do teu olhar!
E por que será que outros se escondem, mas nem por isso deixam de te querer ver?
Ao jeito dos paparazzi, ainda a noite começava
Será de vergonha ou de medo? Ou apenas hesitam em se expôr ao teu luar, para não mostrarem a face que ocultam à tua luz? Oh, Lua, que tão alta vais, tão plena de luz, sem perder pitada do que aqui vai, conta-nos um pouco do que sabes ver, que não deve ser pouco, de ti também precisamos para esclarecer o que não vemos, sem a tua luz que também não somos!
Oh Lua, como para nós podes ser tão bela?